3.8.16

Um certo músico senegalês

Viu-me três vezes na vida e diz que me ama. Nem um beijo lhe dei. No dia em que nasceu, estava na faculdade. Faz 26 anos para a semana. Quando nos vimos pela última vez, disse-me que tinha 32, não sem antes me dizer: a idade não importa, o que importa é o amor.

Interpelou-me numa noite de reggae, numa discoteca de praia chamada Acolhimento, Morabeza, em crioulo. Naquele momento, estava sozinha. Não pude deixar de reparar no tronco escultural que se adivinhava por baixo da t-shirt justa. Tudo dele, sem recurso a máquinas muito menos a anabolizantes. Fruto de corrida, flexões e abdominais. E aos seus imberbes 25 anos. Não há corpos mais perfeitos do que os dos negros, esses excelentes exemplares da raça. Queria que fossemos lá para fora, because you are so pretty, dizia ele. Não fui.

Na vez seguinte, reconheceu-me, eu não. Estava no mar, no Estoril, uma praia da capital, Sal Rei, um pouco afastada e por isso mais deserta do que a Diante, que é mesmo colada ao centro da cidade e vive lotada. Foi aí que soube que era músico, tocava Djambé e isso talvez explicasse a corrente com que anda ao pescoço, com o mapa de África e esse instrumento gravado nele. Disse-lhe que ia à esplanada nessa noite, respondeu-me que depois do seu show, apareceria lá também. Era o único sítio onde se passava alguma coisa, naquela sexta-feira, na Boa Vista. Chegou e agarrou-me logo, achei engraçado até, não estava a ser invasivo, deixei-o estar. Às tantas, não querendo mais do que aquilo, perguntei-lhe se me ia forçar, vomitando um discurso ridículo que haveria de fazer explodir de orgulho o esquadrão das feministas, em que dizia que era europeia e que nós levávamos esses assuntos muito a sério, e que no fundo não podia ser mais masculino, negando clara e inequivocamente o meu feminino. Acho que não percebeu metade do que eu disse, fosse como fosse, já me tinha dito que não me ia forçar a nada. Era apenas egocêntrico, não machista, por isso não lhe passava pela cabeça que alguém não o quisesse. Depois de um bom bocado, em que me ri às gargalhadas várias vezes com as coisas que dizia, desconstruindo-lhe o discurso, muito provavelmente decorado, comecei a sentir-me meio sufocada com aquela pressão e fui-me embora. Veio atrás de mim, vomitei mais um discurso patriarcal e ridículo, de independência e de não ter de dar satisfações a ninguém. E segui o meu caminho, irritada. No dia seguinte, depois de me ter mandado uma foto ao nascer do sol, às seis da manhã, a desejar-me bom dia, disse-me que ficou triste. Senti-me culpada por ter sido bruta e lhe ter dado um perdido na noite anterior e por continuar sem saber o que lhe dizer, já lhe tinha mostrado de todas as formas que não ia acontecer. Pedi-lhe desculpa, disse que não me sentia bem, o que era verdade, e por isso me tinha ido embora. Insiste em dizer que me ama, em perguntar quando volto à Boa Vista, dificilmente voltarei, se acaso viajasse de novo para Cabo Verde, o que duvido, iria para São Vicente, para quê, perguntou-me ele, o que, mais uma vez, me fez rir. Em dizer que quer passar um tempo comigo, para eu ir sozinha. Pergunta-me porque não lhe respondo, se estou zangada com ele, depois de me dizer que me quer abraçar e que pensa muito em mim, sendo que estamos a uns milhares de quilómetros de distância e que muito provavelmente nunca mais nos vamos ver. Manda-me fotos dele o tempo todo, diz que quer ouvir a minha voz, é auditivo, não tenho nem o que lhe escrever, o que dirá dizer... Espaço a comunicação na esperança que lhe passe, já já conhece outra e esquece-se que existo, tenho essa fé.

Dei por mim a achar isto bonito, o orgulho continental escancarado ao pescoço, o acreditar que a conversinha mole convence, a possibilidade de ele acreditar nela, que é possível amar apenas porque se acha bonito, o dizer que se ama porque se acha bonito e isso bastar, o nem lhe passar pela cabeça que eu não queira, apenas porque ele, que é o rei, me quer, o culto do corpo e a insistência em mandar-me fotos suas, porque é o melhor que tem e é isso que quer dar-me. O acreditar que é possível, que vamos ver-nos, que eu vou voltar à Boa Vista. E lembrei-me de um taxista que me levou ao hotel e disse que queria ser a companhia de uma de nós, ou das duas. Do outro que perguntou à minha amiga se queria companhia. Que há poucas coisas mais compensadoras e que melhor nos preenchem do que a paixão. A ver alguma poesia nesta simplicidade que a razão tolheu, que aniquila o romance, e que às vezes não nos fazia mal nenhum não ponderar tanto e simplesmente ir, por ser a coisa mais natural do mundo. A pensar em como o patriarcal acaba com a poesia e esconde a beleza que só os olhos de um artista conseguem ver e a alma de um poeta entender. E no desperdício de existência que isto é.

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