1.8.16

Sódade

A origem das Mornas é controversa. Tudo indica que nasceram na Boa Vista e diz-se que vêm do inglês mourn, luto, ou talvez do francês: morne, triste. Outra teoria, do historiador António Germano Lima, fala nas longas viagens feitas pelos pescadores e do som dos remos dos barcos a bater na água. Outra ainda atribui a proveniência a uma mistura de vários tipos musicais, desde o cancioneiro português, às modinhas luso-brasileiras, passando pelos cantos litúrgicos dos padres. Lima aposta na ideia de que a melancólica música nasceu nos corações dos escravos, saudosos de casa. Dizem que as há mais vivas e não apenas chorosas, que podem ser satíricas, caricaturais, ridículas e com sede de vingança. São cantadas em crioulo, percebem-se palavras, esparsas, aqui e ali, mas não é certamente pela letra, o intelecto, que às mornas chegamos.

Só sei o que senti quando ouvi a banda de que mais gostei, das três que conheci enquanto lá estive. Infelizmente, não por muito tempo, mas o suficiente para me invadir uma nostalgia imensa, que ao mesmo tempo me aconchega e me tranquiliza. Também me comove, vieram-me as lágrimas aos olhos uma ou duas vezes à medida que a melodia, coração adentro, se fundia com o meu sangue, correndo até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, que acompanhavam o ritmo dado pelo órgão, a bateria e o baixo. A entrega da postura e a alma na voz, sem gritaria nem microfone, não deixaram margem para grandes dúvidas. As mornas tomaram-me o corpo e a alma e apaziguaram esse sentimento tão português chamado saudade.

É como se já tivesse morado aqui, perdido alguém muito querido e aceitasse essa perda, sentida, mas de forma tranquila, como deve ser. E não tivesse vergonha nem pudores em expressar essa sódade, em chorá-la, lamentá-la, verbalizá-la como vier, cantando, lamentando, meneando.

É mais fácil aceitar em Cabo Verde, onde não há ressentimento. Que é diferente de resignação. A resignação deixa alguma raiva, pela impotência, a castração da liberdade, que me põe fora de mim, a sensação de que alguém me controla. Sou bicho solto, não suporto a ideia de estar presa, agarrada, amarrada, comprometida à força com algo ou alguém que não me faça sentido, por obrigação, imposição, convenção. Muito menos que me arranquem os sonhos.

Expressando-a, as mornas libertam o coração da tristeza, abrindo-o para o que vier. Nós, os civilizados povos da Europa, precisamos urgentemente de reaprender a fazê-lo. O coração fechado, intocado, encerrado faz de nós cínicos, imunes, distantes e inseguros, ao contrário de tudo o que nos quiseram fazer crer toda a vida.

É conhecida e mais do que aceite, quase estafada, até, a relação dos portugueses com o mar. A associação óbvia aos descobrimentos, a possibilidade que o mar sem fim encerra, mas também uma certa nostalgia, ligada à esperança que nunca morre, por não haver um fim em si mesmo, concreto, mas que, com o passar do tempo, esmorece.



Ouvia um destes dias um querido amigo falar sobre essa relação com o mar, referindo-se aos Açores. O mar que nos traz alimento, mas que nos leva quem mais amamos. E talvez isso explique a minha relação com ele, simbiótica, que tanto remete para o lugar seguro do líquido amniótico, um dos simbolismos psíquicos do mar é a mãe, quanto para o inconsciente, para onde o mergulho é necessário mas de onde não há garantia de saída. Que me lava a alma, me devolve anos de vida, mas me pode levar quem mais amo. Me atira para a costa, mas me engole numa onda, num remoinho, me leva numa corrente; me mantém viva porque me alimenta, o estômago e a esperança, mas me impede de continuar, por manter vivas memórias, abertos caminhos, ciclos por fechar. É preciso deixar que as memórias se apaguem e o coração se abra de novo para que a vida possa correr, como a água, que é a mesma, mas se renova, todos os dias.

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