9.8.16

"Ousar o olhar da misericórdia"

5 meses exatos depois de te teres ido embora para sempre, estava no Cocoa, em Sal Rei, capital da Boa Vista. Tinha acabado de sair do restaurante da Bia onde não tinha almoçado, apenas bebido três super bocks minis. Era para mim um dia difícil e não tinha fome, mas as cervejas, que normalmente não consumo, souberam-me maravilhosamente. A Liliana, uma força da natureza, distraía-me da tristeza. Disfarçava o tempo à conversa com mais um guia, especialista no 4x4, enquanto as super bocks desciam redondo. Saímos dali e parámos no Cocoa, o único bar com internet. Bebi mais uma ou duas super bocks, talvez três ou quatro, não me lembro bem, enquanto me dedicava ao meu momento introvertido da semana, o que é raro, quando viajamos com outra pessoa, mas imperioso, exatamente pelo mesmo motivo. E aproveitava para matar saudades de quem estava longe. Comunico infinitamente melhor à distância, como todos os outros introvertidos. 

Reparo que a igreja com o mesmo nome que eu abriu, foi a primeira vez desde que chegámos, e decido ir visitá-la, na esperança que deus me perdoasse a ousadia de entrar em Sua casa ligeiramente alcoolizada. Quando saio do Cocoa, tive um mau pressentimento quanto às razões pelas quais a igreja tinha aberto naquele momento. Havia imensa gente encostada às paredes dos edifícios do lado esquerdo da praça, onde nos encontrávamos também, protegida do calor, e cujas indumentárias, escuras e cuidadas, deixavam adivinhar o motivo de tamanho ajuntamento, cá fora e dentro da igreja, que, de portas abertas, não chegava para tanta gente, de tão pequena. Não perguntei, mas fiquei logo ali a saber, antes mesmo de me aproximar, que era um funeral. Chego à porta da igreja e a missa era de corpo presente, estava a acabar e nem um segundo me detive, saí rapidamente. Missas do género, só a tua. E se nem a ti vi sair, não era a um desconhecido que ia prestar essa homenagem. Fui para o lado direito da igreja e esperei que alguém que estivesse com um semblante menos triste, sorrindo até, me esclarecesse. Abordei uma senhora que me disse que era um pescador, tinha uns 80 anos. Devia ser tão querido e respeitado quanto tu, independentemente da posição social que cada um de vós ocupava. O que importa é quem tu és e o que fazes, humanamente. Só me voltei para a praça e saí de onde estava quando já tudo estava resolvido. E só nesse momento consegui entrar.

Ouço os lamentos da viúva lá fora, estou mais uma vez a escrever dentro de uma igreja, como me aconteceu em Cortona, Itália, faz agora um ano, sem saber da missa a metade.

Até muito recentemente, talvez me irritasse ante a implacabilidade das estátuas de santos. Dos espinhos na cabeça, do sangue a escorrer-lhe pela testa, daquele sofrimento, pregado na cruz, lá no alto, diante do meu desespero, das minhas lágrimas, da minha impotência. Por isso, deixei de frequentar igrejas voluntariamente, pelo menos.

Descubro-as agora lugares de paz, de acolhimento, de aceitação plena, onde já não vou em busca de alguém que me resolva a vida, mas nas quais posso chorar à vontade. É o que farei, enquanto me apetecer. E de onde saio sempre mais tranquila do que entrei.

Melhor, só um banho de mar, no Estoril.

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