12.8.16

Orgulho sem preconceito

Há um certo charme na decadência. No hotel onde estou, as fardas estão puídas na zona da barriga, veem-se borbotos ao longe, mas são Lacoste. Os empregados, impecavelmente vestidos e penteados. Os quartos, enormes e decorados com quarenta anos de atraso, têm minibar, vazio. As pessoas são silenciosas, contidas nas suas emoções, como só é possível ser num certo nível social, e que é tão natural quanto respirar, sem nos sentirmos oprimidos, muito menos precisarmos de berrar para sermos ouvidos. Civilizados, corajosos, no ponto, sem chegar a ofender, a ridicularizar, a agredir, passivamente ou não, marcando uma posição. Talvez seja isso que me fascina tanto na nobreza inglesa, e me afasta do popularucho português na mesma proporção. Aquela linha finíssima que separa a ofensa explícita, a violência, a agressão, da opinião, da defesa da honra, sem nunca perder a pose, baixar a cabeça, levantar o nariz. Deve ser por isso que na Boa Vista se come peixe com batatas fritas e os rapazes têm muitas vezes dois nomes próprios, um inglês outro português. Houve uma presença britânica na ilha, pelo que li, não foi amistosa. Seja como for, alguma influência, forçada ou reconhecida, os britânicos tiveram, na Boa Vista, pelo menos. Divago, para variar. As toalhas da praia, que já foram azuis, aproximam-se perigosamente do cinzento, mas existem, as dos quartos, imaculadas, mas rotas, podendo ser trocadas todos os dias, se assim o desejarmos. É o brio que me encanta, o cuidado, o insistir na beleza, no charme, na delicadeza. Não deixar descambar, manter a pose, não de arrogância, de orgulho, mas de cabeça erguida, a única forma de sustentar a dignidade até ao fim. O meu coração derrete-se de compaixão perante um cenário destes, sou incapaz de bramir uma crítica, apontar um dedo que seja, fazer uma reclamação. Se me resta alguma nobreza de caráter, é nestas horas que a identifico.
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Sempre vi o reality check como um limite à criatividade, uma castração da imaginação, uma interrupção da fantasia. Quando na verdade o que é, é uma forma de ver em perspetiva, de pôr os pés no chão, de olhar para fora do nosso umbigo, da nossa confortável realidade. Sem cilício mental, superioridade moral, menosprezo por quem pensa, se questiona, quer mais. Apenas um reality check ocasional, para pôr as drama queens and kings que moram dentro de nós no seu devido lugar, sem necessariamente descurar a realidade que está por detrás do drama, o que me falta, do que preciso, que, na grande maioria das vezes, está muito longe de ser material, mas que precisa de ser conhecido e colmatado. Até porque satisfazer as necessidades alheias não nos resolve as nossas, se nelas não estiver incluída a necessidade de ser útil. E enquanto não as resolvermos, as drama kings and queens reinarão.

O reality check que nos permite, lá está, não nos queixarmos gratuitamente, por vício, sem que nada nos falte, sem motivos vitais para tanto. E sim, não é sem alguma vergonha que admito que preciso dele para tal. Talvez tenha sido isso que fui fazer a África. Entre outras coisas.
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Não deixa no entanto de me chocar a divisória de pedras, artística, para não ser muito descarado, que existe entre as espreguiçadeiras onde nos refastelamos e o caminho por onde passam os locais. Este apartheid económico é tão chocante quanto o outro. Por isso fiz questão de dizer ao miúdo da receção que me viu na praia, enquanto passeava com os cães, que não lhe falei porque não o reconheci. E não porque "não gosto" de ser interpelada por funcionários de hotéis. Como quem faz questão de lhe garantir que somos iguais, eu só nasci num sítio diferente, noutro continente e numa família com condição. Apesar de ter a sensação de nem precisar de o fazer, ele, e os outros, perceberam que era diferente dos demais. Para além de falar com eles de igual para igual, não precisava que jovens adultos de 18 anos me entretessem, entediada que me sentia por estar de biquini, de papo para o ar, num paraíso escaldante, com um mar verde cinema à minha frente, enquanto eles tinham de jogar beach volei vestidos, debaixo do mesmo sol que me bronzeava, apesar de estar o dia inteiro à sombra.

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