7.8.16

No deserto

O que seria de nós sem a revolução industrial e a possibilidade de nos deslocarmos para lugares distantes? Sem a ciência e o aumento da esperança média de vida, já para não falar na possibilidade de paliar a dor? Sem congelar alimentos? Sem soluções tecnológicas para tudo e mais alguma coisa?

O que será de nós se não questionarmos um sistema cuja engrenagem corre sem interrupções, mecanicamente, cada vez mais veloz, levando por arrasto todos quantos se orgulham de pensar, algo que as máquinas ainda não conseguem fazer. Calcular hipóteses, guardar quantidades de registos inimagináveis, que a nossa limitada memória jamais aguentaria, fazer diagnósticos, podem até nunca se enganar, como gostamos de dizer. Mas pensar? Pensar, não. Arranjar formas diferentes de atingir o mesmo resultado, que não sejam tão frias ou taxativas muito menos. Não, as máquinas jamais poderão substituir o homem.

Foram criadas e desenvolvidas por ele, que se encontra refém delas. Limitando-o, impedindo-o inclusive de pensar, de agir além delas, de as questionar, de as enfrentar. Para além de um inquestionável sinal de subserviência, de ausência de inteligência, é de uma falta de humanidade que começa a roçar a esquizofrenia. Deixando que se sirvam de nós, em vez de sermos nós a servirmo-nos delas. Levando-nos a perder o contacto com o que temos de mais precioso, os nossos instintos, as nossas emoções, a nossa capacidade de empatia, que nos leva a melhores portos do que qualquer máquina, que se dirige ao cérebro, ao racional, à implacabilidade da lógica, deixando o coração e a emoção de lado.

Nós, os civilizados povos do ocidente, andamos a pagar fortunas em workshops para reaprendermos a voltar-nos para dentro, a conectarmo-nos com a nossa sabedoria interna, os nossos instintos, o que temos de mais básico e mais autêntico, o que nos permite subsistir em qualquer circunstância, o nosso instinto de sobrevivência. Seguindo gurus disto e daquilo, que têm soluções apenas para si, mas que insistem fazer delas universais, em vez de incentivarem cada um a procurar as que melhor lhe convém, mais adequadamente lhe assenta, tornando-o independente e seguro para que possa tomar as suas próprias decisões, fazer as suas próprias escolhas, em vez de esperar que alguém lhe diga, a todo o momento, qual é a solução para a sua vida, como se soubessem. Alimentando um sistema que nos cria falsas necessidades todos os dias, para sustentar uma mentalidade consumista que nos enche do que não nos preenche, ao mesmo tempo que tomamos comprimidos para a ansiedade, fumamos um maço de cigarros por dia, comemos como se estivéssemos em guerra e os alimentos fossem racionados e nos acabamos num ginásio, para compensar. Insistindo em procurar placebos lá fora para tentar chegar ao que se passa cá dentro. Negando cada vez mais quem somos, afastando-nos irremediavelmente de nós.

Entrego me rápida, fácil e de forma muito eficaz a essa nobre arte de não fazer nenhum, é um dos meus inúmeros talentos. Mas dei por mim a perguntar-me o que as pessoas fazem aqui, na Boa Vista, já que não se passa nada e poucos são os recursos. Logo me ocorreu se se perguntariam o mesmo, o que fazem estas pessoas aqui, se lá no continente deles têm tudo e nada lhes falta. Na neurose ocidental de ocupar a cabeça, aproveitar o tempo. Na dificuldade que temos em ficar quietos, imóveis, contemplativos. Na melancolia que me invade quando vejo os velhinhos nas soleiras das portas, a ver quem passa, tristes e de olhos vazios.

Depois fui ao deserto. E aquela imensidão de terra sem fim que só existe em África, aquele quente e reconfortante silêncio, aquelas dunas perfeitas e a implacabilidade daquelas montanhas apaziguaram-me. Há um conforto imenso na possibilidade de aceitar, sem tentar resolver, arranjar compensações, soluções de compromisso, intermédias, que satisfaçam o ego das partes. Sem fugir. Viver, simplesmente, em simbiose. Confiando que tudo está no seu devido lugar, se resolve, desde que me mantenha conectada comigo mesma e próxima da natureza.

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