5.8.16

Olá e um sorriso

Cabo Verde dá vontade de ter filhos, lá, com locais. Às dezenas, as crianças andam livres pelas ruas e pela praça da cidade, aos pares ou sozinhas. Correm para nós e abraçam-nos as pernas. Quando passamos, sorriem com a boca e os olhos e dizem olá, ou ciao, habituadas aos italianos. Algumas não, as maiorzinhas, normalmente meninas. Fazem inclusive caretas e devolvem-nos uma cara enjoada quando as abordamos com um olá, respondo-lhes com uma gargalhada. Outras fazem poses assim que vêm uma máquina ou um telefone.

Quando pergunto: quem me dá um abraço, ela abre um sorriso e os braços.
Tem 13 anos e passa além das pedras que, alinhadas, lhe dizem por onde pode caminhar, como se a praia tivesse dono e a ele só coubesse um corredor, o resto pertence ao hotel e aos seus hóspedes. É o caminho para a sombra, debaixo da qual uma família inteira faz a cachupa ao domingo e por lá almoça, protegida do vento, nas rochas que vão dar a uma pequena praia que só existe na maré baixa. Depois da sombra, não estou certa onde, há de haver um local bom para a pesca. É para lá que se dirige, para voltar com o almoço para a família inteira. Não há atividades extracurriculares para as crianças da Boa Vista, há peixe para pescar e levar para casa, onde a mãe o cozinhará. 

Uns dias depois, voltamos a cruzar-nos, já mais para o fim do dia. Íamos ver o que havia além da sombra, que fica por baixo da estrutura coberta, onde os turistas bebem uns copos ao fim do dia. Estrutura essa que também serve de encosto à família, que ali almoça cachupa ao domingo. Estava com um amigo. Mais à frente, é advertido. Olha, deixaste cair um peixe. Surpreso e meio em pânico, diz alguma coisa em crioulo ao amigo, que não conseguimos ouvir, e vem a correr resgatar o peixe perdido. O rosto ilumina-se e abre um sorriso, enorme, acho que foi o maior e mais genuíno que vi: Obrigada, diz. Talvez fosse o peixe que lhe cabia, talvez o tivessem poupado de ficar sem jantar.

Estamos dentro de água e um miúdo italiano de uns 8 ou 9 anos, com uma bola de areia na mão, tenta seduzir dois rapazinhos cabo-verdianos para perto dele. Não lhe fizeram mal algum, foi simplesmente o que lhe ocorreu fazer, tentar atirar-lhes uma bola de areia. Os miúdos, espertos mas pacíficos, afastavam-se, não deixando de olhar para ele, que continuava a caminhar, de bola em riste, com as piores intenções. Eram dois contra um, podiam muito bem ter resolvido a coisa ali, faziam-lhe uma amona ou agarravam-lhe o braço para que soltasse a bola, e a conversa acabava. Mas não, falavam um com o outro e afastavam-se cada vez mais mar adentro. Não percebia o que diziam, mas via-os tranquilos, concluindo que estava tudo bem. Continuei na minha vidinha, quando reparo que o miúdo italiano já tinha perdido a bola de areia. E continuava a caminhar, na direção dos outros dois. Às tantas, vejo-o ir ao fundo. E a demorar para voltar. Vem à tona e vai ao fundo outra vez. Da vez seguinte que vem à superfície, pede ajuda. Não hesitei. Caminhei rapidamente até ele e segurei-o, era gordinho, pesado, até, mas dentro de água dava para levar bem. Perguntei-lhe se respirava, respondeu-me que sim e limitei-me a levá-lo até onde tinha pé, deixando-o caminhar até ao pai, que já o esperava à beira de água. O miúdo estava envergonhado, não dizia uma palavra, apenas seguiu as minhas instruções, de olhos baixos. O pai perguntou-lhe se estava a brincar, disse categoricamente que não. Agradeceu-me, disse que não era nada e fiquei ali mais um bocado. Até ver o miúdo sair da água, são e salvo. Os outros dois, que estavam a ser perseguidos por ele, tinham vindo atrás de mim e nem me tinha dado conta. Só reparei quando já estavam junto do italiano, certificando-se de que estava tudo bem. Fiquei mais um pouco, nunca mais me lembrei da história, até ter saído da água e ouvido algo do género: quase te afogavas, cretino, na voz de uma mulher que devia ser a mãe dele, que me agradeceu quando por eles passei. Não admira que o miúdo seja assim...

Estávamos em Sal Rei, a preparar-nos para voltar ao hotel, quando a minha amiga pega no pão com fiambre e nos dois bocados de banana que tinha trazido do pequeno-almoço e os dá a um miúdo que por nós passou. Devia ter uns seis anos. Ficou a olhar para as duas mãos, sem saber o que fazer. Perguntei-lhe se queria ajuda e o que queria comer primeiro. Tirei os guardanapos que envolviam o pão e devolvi-lho. A imagem e o som dos dois pregos enormes que tinha na mão e que deixa cair quando a abre para agarrar no pão dificilmente me sairão da cabeça. Não sei até que ponto lhe faziam falta, ou ao pai dele, sei que dá uma enorme dentada no pão e vai-se embora, sem uma palavra, deixando os pregos para trás. 

Outros apanham camarões, respondem educadamente às perguntas que lhes fazemos mas sorriem pouco, concentrados na sua missão.

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