2.8.16

Boa Esperança

Das 16 mil pessoas que moram na Boa Vista, uma das dez ilhas de Cabo Verde, 9 mil moram na Boa Esperança, um bairro de lata, como lhes chamávamos nos anos 80 em Portugal, antes de termos aderido à CEE e desatarmos a construir bairros sociais que, felizmente, acabaram com o que seriam as favelas portuguesas.

Este bairro fica situado no meio da ilha e, em volta, uma série de habitações sociais foram construídas e estão prontas a acolher várias famílias. Apesar disso, encontram-se vazias, há anos. Porque as famílias não têm 100 euros para dar por mês pela casa, juntando-se-lhe o resto das contas, água, luz, gás, optam por ficar onde estão.

A grande maioria dos habitantes da Boa Esperança provem de países vizinhos. Vieram para Cabo Verde à procura de uma vida melhor, para construir os hotéis de luxo para onde vão os turistas, com tudo incluído, por uma semana. A crise de 2008 veio estragar os planos de engenheiros senegaleses, arquitetos da Gâmbia e trabalhadores da construção civil da Nigéria, que, agora, vivem na Esperança de uma mudança. Muitas das suas mulheres trabalham, todos os dias, nos hotéis que ajudaram a construir, trabalho que os cabo-verdianos recusam, por 200€ por mês, o preço que paguei pelos últimos óculos escuros que comprei, há 5 anos. Convivendo com europeus entediados que precisam que 5 jovens adultos os entretenham para se distraírem da chatice que é estarem de papo para o ar, de costas viradas para o mar, a apanhar aquele sol fortíssimo das dez da manhã na cara, com o objetivo de ficarem o mais possível parecidos com um tijolo. Servindo refeições fartas, onde nada, nada falta. Para voltarem para a Boa Esperança, onde apenas há eletricidade das 5 à meia-noite, o saneamento é praticamente inexistente e assim vivem até ao fim do mês, momento em que aproveitam para mandar algum dinheiro à família que ficou nos países de origem.

Longe de achar que as pessoas têm direito a carro ou outros luxos, o carro não é um bem de primeira necessidade, transportes decentes sim, para que as pessoas se possam deslocar para os seus trabalhos e as crianças e adolescentes para escolas e universidades. Mas há um mínimo indispensável para se viver, mesmo que se consiga sobreviver sem esse mínimo. E esse mínimo é dignidade. É um teto, é água canalizada e luz elétrica, é comida na mesa, é ensino, saúde, justiça e segurança para toda a gente. Sem isto, não há dignidade possível. O que cada um faz com a sua vida depois, é com ele, se quer morar na rua, se se desgraçou todo nas drogas. Mas para podermos dizer que evoluímos enquanto espécie, a volta dessas pessoas à vida civil tem de estar garantida, assim o desejem. Com instituições públicas que se encarreguem de voltar a inserir essas pessoas na sociedade, responsabilizando-as pelo seu processo. Não se trata de salvar ninguém, nós só precisamos de ser salvos de nós mesmos, mas sozinhos fica mais difícil. E ninguém está isento de fazer más escolhas.

Em outubro, as crianças da Boa Esperança terão um jardim de infância. Que funcionará na Associação Comunitária Unidos pela Boa Vista. Lamine Fati, guia turístico guineense, é o presidente da associação, que já disse que assim que a escolinha estiver de pé, vai construir um campo de futebol para as crianças. Conta com a colaboração de algumas empresas e os padrinhos de dezenas de crianças, que só podem frequentar a escola se quem as apadrinhou mandar 25€ por mês, no caso dos mais pequenos, a partir dos dez anos, apenas 10 euros são precisos. Tem 25 anos e muitos sonhos. Mexe-se bem e é respeitado, todos o conhecem na Boa Esperança. Uma vez por mês, celebra-se o aniversário dos meninos e meninas que nasceram nos 30 a 31 dias desse mesmo mês, com bolo para todos. Aos domingos, há pequeno-almoço dado pela associação para dezenas de crianças a quem nunca falta um sorriso e um olá. E nas festas, arranja-se sempre forma de lhes dar alegria. No dia 1 de junho, na Páscoa e no Natal. Antes do grande dia, as crianças da Boa Esperança escrevem ao Pai Natal e a Associação garante que todas recebem o presente que pediram. Às vezes, Lamine cansa-se, tudo demora, mas o brilho volta-lhe aos olhos, a força às palavras e a determinação aos gestos quando chega à Boa Esperança e as crianças lhe abraçam as pernas.

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