31.7.16

Boa Vista Social Club

Correndo o risco de ofender metade do planeta, desculpem-me que vos diga, mas isso que vocês fazem não é viajar, tenham paciência. É, quando muito, turistar.

Embarquei pela primeira vez, e talvez última, num desses números de voo charter, uma semana num lugar, hotel 4 estrelas, pulseirinha e meia pensão. Não fazia ideia ao que ia, mas o tudo incluído já me parecia demais.

No início, ainda tentei entender, as pessoas trabalham o ano inteiro, andam com os filhos para trás e para a frente, ocupadas com a casa, a comida, a roupa, o trabalho fora e chegam ao verão e querem é sopas e descanso, não pensar em nada, papo para o ar e chatices zero. E segurança. É uma maneira de as pessoas mais humildes viajarem, ficarem em sítios decentes, que antes só estavam acessíveis aos ricos e poderosos, conhecerem além do quintal delas, contactarem com realidades diferentes, abrirem a cabeça. Para aí ao segundo dia, deixei-me disso. E cheguei mesmo à conclusão que não entendo, é demais para mim.

Só me apercebi de onde me tinha enfiado quando estava na praia e começo a ouvir um rapaz a falar ao microfone, senti-me na feira popular, parecia o moço que falava no poço da morte, mas em italiano, apesar de estar em Cabo Verde, onde a língua oficial é o português e o crioulo, porque os italianos tomaram conta do país, dos resorts e da vida em geral e, no hotel onde estávamos, até os cafés expresso são tirados curtos, italianas, como lhes chamamos, os locais se nos dirigem em italiano e os animadores, que também nos interpelam em italiano, gritam três horas por dia de manhã e outras tantas à tarde. Por isso me senti entre o Circo Cardinali e os carrinhos de choque de uma qualquer aldeia do interior do nosso Portugal. Demorei uns minutos a entender, no meio dos maiores resmungos, até que decidi pôr-me a andar para a praia do lado. Afinal, não tinha apanhado com quatro horas de voo e gasto o orçamento para um mês para me irritar. E a última coisa que me apetecia era que o meu primeiro contacto com a África Negra me soasse a Capri ou assim. Foi para África que fui, não para a Europa. Era África que queria, na veia, de preferência.  
E não é de hoje, desde o Club Med que não entendo o fenómeno, já na época, não tinha nem 30 anos, me lembro de nada daquilo me fazer sentido, de me dizerem que estiveram em Marrocos, no Club Med, e eu me perguntar se não seria a mesma coisa estar lá, em Punta Cana, na Madeira ou no Algarve.


Não descurando a importância de uma boa base, com um chuveiro decente e lençóis lavados, e duas refeições dignas desse nome garantidas, muito menos querendo dizer que foi mau, mulatos desnudos de sorrisos cheios e olhares lascivos na minha direção e mar verde cinema não são propriamente motivos para me queixar, confesso que os melhores momentos passei-os fora da área protegida.

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