Correndo o risco de ofender metade do planeta, desculpem-me
que vos diga, mas isso que vocês fazem não é viajar, tenham paciência. É, quando muito, turistar.
Embarquei pela primeira vez, e talvez última, num desses
números de voo charter, uma semana num lugar, hotel 4 estrelas, pulseirinha
e meia pensão. Não fazia ideia ao que ia, mas o tudo incluído já me parecia
demais.
No início, ainda tentei entender, as pessoas trabalham o ano
inteiro, andam com os filhos para trás e para a frente, ocupadas com a casa, a
comida, a roupa, o trabalho fora e chegam ao verão e querem é sopas e descanso,
não pensar em nada, papo para o ar e chatices zero. E segurança. É uma maneira de as pessoas
mais humildes viajarem, ficarem em sítios decentes, que antes só estavam
acessíveis aos ricos e poderosos, conhecerem além do quintal delas, contactarem
com realidades diferentes, abrirem a cabeça. Para aí ao segundo dia, deixei-me
disso. E cheguei mesmo à conclusão que não entendo, é demais para mim.
Só me apercebi de onde me tinha enfiado quando estava na
praia e começo a ouvir um rapaz a falar ao microfone, senti-me na feira
popular, parecia o moço que falava no poço da morte, mas em italiano, apesar de
estar em Cabo Verde, onde a língua oficial é o português e o crioulo, porque os
italianos tomaram conta do país, dos resorts e da vida em geral e, no hotel
onde estávamos, até os cafés expresso são tirados curtos, italianas, como lhes chamamos, os
locais se nos dirigem em italiano e os animadores, que também nos interpelam em
italiano, gritam três horas por dia de manhã e outras tantas à tarde. Por isso
me senti entre o Circo Cardinali e os carrinhos de choque de uma qualquer aldeia
do interior do nosso Portugal. Demorei uns minutos a entender, no meio dos
maiores resmungos, até que decidi pôr-me a andar para a praia do lado. Afinal,
não tinha apanhado com quatro horas de voo e gasto o orçamento para um mês para
me irritar. E a última coisa que me apetecia era que o meu primeiro contacto com a África Negra me soasse a Capri ou assim. Foi para África que fui, não para a Europa. Era África que queria, na veia, de preferência.
E não é de hoje, desde o Club Med que não entendo o
fenómeno, já na época, não tinha nem 30 anos, me lembro de nada daquilo me
fazer sentido, de me dizerem que estiveram em Marrocos, no Club Med, e eu me
perguntar se não seria a mesma coisa estar lá, em Punta Cana, na Madeira ou no
Algarve.
Não descurando a importância de uma boa base, com um
chuveiro decente e lençóis lavados, e duas refeições dignas desse nome garantidas, muito menos querendo dizer que foi mau,
mulatos desnudos de sorrisos cheios e olhares lascivos na minha direção e mar
verde cinema não são propriamente motivos para me queixar, confesso que os melhores
momentos passei-os fora da área protegida.

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