5.8.15

Florença, Siena, a Arte e os Artistas.

A rivalidade histórica e artística entre Florença e Siena é conhecida. Ainda que ambos os movimentos marquem forte presença nas duas cidades, sou mais da arte renascentista do que da gótica, toca-me mais na alma, mas a Duomo de Siena não deixa de impressionar, mais por fora do que por dentro. Aqueles detalhes nas paredes... Pensar que foram esculpidos na pedra, impressionam-me sempre um bocado, é isso que me fascina e me deixa absolutamente rendida nos Jerónimos, por exemplo.  


É praticamente impossível escapar da arte em Florença, quem quereria...., está em cada museu, em cada esquina, em cada passeio, pelo giz de artistas amadores, em cada igreja. 

Depois de David e, do nada, ahah, vem-me à cabeça o teto da Capela Sistina, onde nunca estive, mas sei que impressiona até os mais insensíveis e que é obra desse grande génio chamado Michelangelo, com direito a Rafael e Botticelli de brinde, entre mimos de outros renascentistas. E dou por mim a pensar, agora com propriedade, sem que o meu ego queira mais fugir, porque inevitável, e aproveitando uma brecha que deu ao Self, que talvez os artistas sempre se tenham vendido, entrado numa espécie de acordo com o sistema, num commitment com o mundo real. Os antigos vendiam-se para a igreja, quem detinha o poder, e os mais recentes para o mercado, a economia, o vil metal, quem dita as regras na era do capitalismo. Os génios do Renascimento não deixavam de pintar os seus quadros, de dar voz à galera que morava na cabeça deles, mas, para tal, precisavam de pintar umas igrejas, esculpir uns deuses, ao mesmo tempo que lhes imprimiam a sua marca, de si mesmos e da sua genialidade, vale acrescentar, dos quais era impossível escaparem, sem por isso se lhes abalar a identidade, o talento, sem que o seu dom fosse sequer beliscado. A única coisa que talvez saísse tocada seria o ego, do qual é preciso despegar, arriscar perder o controlo, para que a divindade que mora em cada um de nós se solte, ego esse que seria recomposto, ante a aprovação e a admiração da populaça, dos nobres e dos clérigos. Talvez seja esse o equilíbrio para a sobrevivência, para uma vida plena, talvez seja isso a famigerada união dos opostos, do inconsciente com a vida mundana, que só é possível na vida adulta desde que um complexo não esteja presente. Na presença de um complexo, a consciência é sempre, sempre polarizada...  
Fico com dor de cabeça só de pensar nisso...

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