7.2.14

Maloca

Uma das hipóteses de hospedagem seria a maloca, que dois paulistas começaram a construir em Alter, depois de terem comprado um terreno, em novembro passado. A maloca estava cheia, mas mesmo que não estivesse, não iria querer lá ficar, não só porque ficava longe de tudo, da água, inclusive, mas também pela quantidade de gente que lá estava a morar. É gente demais e eu sou introvertida, no sentido em que o que me estimula, me alimenta, me mantém viva e criativa, vem do meu mundo interno, ao contrário do que acontece com os extrovertidos, que são estimulados pelo que vem de fora (conceitos de Jung). Daí que o convívio permanente com um grupo me canse, muito, cada vez mais... seja que grupo for, família incluída. É bom por umas horas, mas depois, agora tenho a certeza mais do que absoluta, quero é sossego, apesar de, como me disse uma vez um amigo querido, a minha presença encher uma sala, ou seja, não passo despercebida, nunca...

Fomos fazer uma visita aos rapazes, conhecer a maloca, ver qual é. Os rapazes, na sua grande maioria, se não todos, com idades compreendidas entre os 30 e os 33 anos, são mais que muitos. A maloca albergava, quando lá fomos, umas 17 pessoas, três delas, apenas três, mulheres... Ainda iam chegar mais três rapazes nos próximos dias. Ou seja, as vozes são muito mais altas e muito mais grossas, apesar de não me queixar, prefiro mil vezes vozes grossas a vozes estridentes, seria demais. A rapaziada, além de em grande número, era barulhenta, testosterona a rodos, um estimula o outro, o outro estimula o um, e em segundos é uma barulheira que não se aguenta. Já não tenho idade para isto e estou desconfiada que eles perturbam o ecossistema, com tanta gritaria. Simplesmente, não aguentaria viver com tanta gente, durante tanto tempo, todos os dias, sem poder fugir para dar umas escapadelas e ficar na minha, a sós com os meus pensamentos. Preciso, e só consigo, pensar sozinha... A vida galopa e muito na minha cabeça, a minha mente é o paraíso para qualquer introvertido... E eu preciso disso, para escrever, inclusive. 

Depois de uns 15 minutos a andar pelo meio do mato, sem ver a ponta de um corno e a pensar que nem morta me apanhavam ali sozinha - apesar de o caminho estar livre de pedras e outras armadilhas, graças ao trabalho do Matoso, nosso companheiro de viagem de barco, que colaborou para que o caminho se tornasse numa trilha, evitando que nos perdêssemos - ao chegar, fiquei impressionada. O que os rapazes tinham conseguido fazer em meia dúzia de dias era inacreditável. A maloca era enorme e estava linda, com um super bom gosto, e prometia ficar mais bonita ainda. Aluguei o Marcelo, um dos sossegados do grupo e um dos donos do terreno e da Maloca, durante uns bons minutos, e metralhei-o com perguntas intercaladas de elogios e parabéns, queria saber tudo.
Teto da maloca
A maloca é um espaço em que se levantam uns tijolos do chão, apenas para fazer um pequeno muro, se pregam estacas de madeira com intervalos regulares, cobre-se o telhado com palha e voilà, está feito. Nesta, em vez de levantarem uns tijolos, eles preferiram levantar o chão todo, deixando tudo liso. Não tem paredes e qualquer comunidade indígena tem uma, ou mais que uma, é assim que eles vivem. Na dos paulistas, eles subiram um andar (na foto acima só se vêem as traves que iriam sustentar o teto, também de madeira) iam fechar dois quartos por cima da cozinha, também ela fechada, o que serve de espaço para guardar o que não pode ficar cá fora, enquanto eles não estão lá, e prolongar, nos extremos, o piso até ao fim, para poder albergar mais gente. Para além de sustentarem a construção, as estacas de madeira servem para pôr ganchos ou pendurar cordas, onde ficarão as redes. As casas de banho também ficam lá em cima, com duches coletivos, mas isolados, meninos separados de meninas, cada um de sua vez, enfim, a não ser que houvesse vontade de ambas as partes, imagino...  
Aquelas ripinhas ali ao fundo eram a "parede" da cozinha
O trabalho que fizeram ali, para além da velocidade supersónica, estava, não me canso de dizer, lindo de morrer. O chão era protegido, de madeira, linda, por sinal, e mantinha-se impecável, a vista para as árvores, perguntei se não corriam o risco de ser atacados por um bicho qualquer. Nada. A palha veda por completo, a chuva, por mais forte que seja, não lhes cai em cima.   
Levei 15 dias para entender o símbolo que precisaria de elaborar, e integrar, e que estava representado por aquele grupo, não todo e não sem a preciosa ajuda do Vasco, um dos rapazes barulhentos. Naquele momento, a única coisa que conseguia fazer era resistir. O grupo, aquele grupo em particular, era fechado demais, não estava nem aí para quem não fazia parte dele e divertia-se alegremente o tempo todo. O problema era, como é óbvio, meu, não deles. E disso eu já desconfiava, não vim a este mundo a passeio, tudo o que estudo e leio de psicologia não cai em saco roto e é aplicado na prática. Mas, até lá, ainda muito havia por descobrir. 

Para já, para já, a aparente resistência ao grupo não foi de rejeição, muito menos agressiva, não sei inclusive se eles perceberam alguma coisa. Simplesmente não senti necessidade nem de rejeitar nem de me integrar. Além de que, tive de admitir de imediato, eles eram engraçados e super criativos, as metáforas "futebol e as mulheres" fizeram-me chorar a rir em alguns momentos, logo no dia em que os conheci. Sem nunca, nunca se agredirem, ou às mulheres sobre quem falavam, se ofenderem, se porem para baixo, mas isso só percebi, a sério, quase no fim da viagem. 

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