17.2.14

A Selva

Seu Bata, o Jack Sparrow do Tapajós, 53 anos. Desde os 12 que brinca com jacarés e peixes elétricos, respondendo pelo nome de: índio da floresta. Tem o ensino médio e tentou morar fora da selva, mas não conseguiu, "ficava muito doente". Foi um guru que o mandou ir viver para lá, para sempre. O mesmo que lhe disse que aos 60 anos iria fazer remédios. Perguntei-lhe por que não antes? "Ainda não estou preparado".

Conhece a floresta como ninguém, é, mesmo, o seu habitat natural. Árvores, plantas, insetos e outros animais. Com ele, não há aranhas mais perigosas do mundo que metam medo, e se eram nojentas e assustadoras, meu deus...

Segura jacarés vivos com os dentes e apanha-os dos mais diversos tamanhos, à mão... É fácil apanhar jacarés, é só apontar-lhes uma lanterna para os olhos, eles cegam momentaneamente, ficando imóveis, pegar-lhes pelo cachaço e segurá-los por lá o tempo todo, eles não se mexem mais. Obviamente, não lhes peguei e não tenho fotos disso, mas os meus companheiros de viagem não me deixam mentir, os mais corajosos, que pegaram neles. O Seu Bata apanhou três, um pequenininho, um maiorzinho e um outro que já tinha uma força brutal. Soltou-os no chão mesmo à nossa frente e eu tive de saltar para que um deles não me tocasse. Aquela bocarra dá medinho... Como perguntou o Marcos, com muita graça: "Seu Bata não pega estrela cadente, né"? Que me fez soltar uma gargalhada que é bem capaz de ter acordado a bicheza... Sim, só lhe falta apanhar estrelas cadentes e trazê-las pra nós. 

Foi na comunidade dele que ficámos e dormimos, numa maloca devidamente afastada da do clã, com chuveiros individuais cá fora, banhos tipo Big Brother, porque as paredes eram de palha devidamente cerrada, mas não tão fechados assim, a meio caminho entre a nossa maloca e o lugar das refeições. Mas mal tivemos contacto com a família dele. As filhas, ou seriam netas?, mais velhas não estavam nem aí pra nós, acho que fizeram questão até de não nos conhecer. A mulher do Seu Bata aparecia sempre nas horas das refeições e acho que era ela que as cozinhava. Era naquela "casa" que comíamos. (Foto: CM) 

Raimundo a fazer os telhados de palha das malocas que aguentam chuva e tudo. Só tinha um dente em baixo e, pra ele, o Seu Bata é quase um deus.

O Seu Bata também foi o nosso guia na selva. Foi graças a ele que dormimos na mata virgem da Amazónia, numa rede, a céu aberto, depois de uma trilha de quase duas horas, pelo meio do mato. 

Dormir é como quem diz, não dormi nada. A toda a hora sentia passos, de gente e de bicho, as folhas das árvores davam a entender que caía, constantemente, uma galera lá de cima, mas talvez fosse só uma coisinha ou outra que, devido à distância das copas ao chão, e à quantidade de folhas pelas quais a coisinha tinha de passar, dava a sensação que eram mil, e desconhecidas... Os sons eram os mais variados e é-me impossível discernir quem grita e quando. E, na completa escuridão, confesso, não me interessei muito por saber. 

Não nos cruzámos com nenhuma onça, mas elas andavam por lá. Diz-nos o Seu Bata que elas têm mais medo de nós do que nós delas. Sei... E que só atacam quando estão com os filhos, como qualquer fêmea, protegem as suas crias. Felizmente, não precisámos de o testar... Ainda nos mostrou uma marca de fundo de garrafa de coca-cola, ou Guaraná, que os guias mais engraçadinhos mostram aos turistas como sendo de pata de onça. 
"Mulher nunca pesa pra nós", já não me lembro quem disse, mas gostei da demonstração, pelo menos aparente, de macheza. 

Este é o nosso "acampamento". (Foto: CM)

Jantámos maravilhosamente, tudo previamente preparado e carregado pelo Seu Bata. 

Vimos muito poucos macacos e os que vimos escondiam-se no verde das folhas, lá no alto das árvores. Que são enormes, altíssimas, talvez para conseguirem alguma luz do sol e se poderem desenvolver. 

Vi finalmente o que era um cipó, é uma planta estranhíssima que amaranha pelos troncos das árvores acima e as mata, estrangulando-as. Perguntei ao Seu Bata qual era a utilidade do cipó, ao que me respondeu: agora você me pegou. Por momentos lembrei-me de gente cipó... Só mais tarde soube que uma das utilidades é o chá xamânico sagrado. É com o cipó, e umas folhas de uma outra planta, que se faz a ayahuasca... Se não me engano, extrai-se a substância do dito. 

[Antes mesmo de me vir embora de Alter tive a minha primeira experiência com o chá. Três doses de um negócio que sabe mal como tudo, o cipó tem um sabor horroroso, que se tomam de hora e meia em hora e meia, em shot, de um trago só, felizmente, e nada, nem um vómitozinho, um desarranjo intestinal, nada. Nem Jesus, nem duendes, nem seres de outro planeta. Nada, zero.] 

A árvore impossível de abraçar, Samauma de seu nome.

O silêncio da selva é perturbador. É claro que há barulho, mas apenas de animais, que comunicam uns com os outros por cima das nossas cabeças. Refiro-me ao silêncio da inevitabilidade. Na selva não há o que nos distraia, somos nós connosco mesmos. Além de que nada muda na selva, as árvores são as mesmas há trocentos anos, quase nada se move, nada precisa da influência dos seres humanos para se desenvolver, florescer, viver. A natureza dá-nos lições de humildade como ninguém. Não somos nada na selva, nada do que façamos mudaria alguma coisa no ecossistema que tenho pela frente, um dos maiores e mais inexoráveis do mundo. E se comparar a selva ao mundo coletivo, as árvores às pessoas, sejam próximas ou distantes, chego à mesma conclusão. 

Resta-me continuar a fazer o que me propus fazer e dividi-lo com a comunidade, que consome se gostar do sabor, se lhe servir, se lhe convier. Tenho esse dever social, como o tem qualquer pessoa que faça descobertas que possam contribuir para ajudar os demais, mas parei de querer devolver maçãs às árvores.    
Eu dormi ao relento na selva amazónica, mata virgem e tudo, e sobrevivi. 

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