30.1.14

Na volta que o mundo dá*



Tomei a decisão de largar tudo e partir, sozinha, com a insegurança e as dúvidas típicas de quem se arrisca a esse ponto, sem que me minassem a confiança e a convicção plena de que estava a fazer a coisa certa. Sabia que tinha de ir, sem qualquer motivo racional, apesar de os fabricar na minha mente, apenas com uma vozinha cá dentro que deixei de ignorar e que me dizia: é aqui.

Nos primeiros meses de Brasil a sério, os primeiros cinco não contam, queixei-me muito de abandono, andava lá fora a lutar pla vida, numa cidade gigante, perigosa, assustadora, onde não conhecia praticamente ninguém. 

Quem conhecia soube-me pela vida, uma que me amparava do lado de lá, em tudo, desde compras a abraços e afeto explícito, e outra que me amparava a alma portuguesa, no Brasil há alguns anos, orientada na vida, com uma estrutura montada, vida familiar estabilizada e sólida. [Curiosamente, e depois de ter conhecido um número considerável de pessoas, são das que se mantêm de forma mais sólida...Lá como cá, algumas vieram tão depressa quanto se foram...] Mas na grande maioria das vezes e dos dias estava praticamente comigo, apesar de fazer questão de não morar sozinha, passo muito tempo em casa, trabalho em casa, é bom ter alguém que entra e sai, uma estrutura montada, para não ter de me incomodar com minudências tipo pratos, talheres, sofás, e tal. Até porque o meu tempo era limitado, não me apetecia dar-me a esse trabalho, tudo era incerto, inclusive eu, principalmente eu... A casa para onde fui logo em 2009 é a mesma onde vivo hoje. Um porto seguro, certamente. Um lugar de paz absoluta, a certeza de que sou bem-vinda, querida, apreciada. Onde tenho a minha vida sem ter de dar satisfações a ninguém.

Queria sentir que continuava a ser querida pelos meus, que se preocupavam comigo, que queriam saber. Talvez não tivesse feito tantos esforços assim para manter algumas relações, vínculos. Tinha-me cansado de ter a sensação de que era só eu a remar e, quase um ano antes, eu própria também me tinha conscientemente afastado de algumas pessoas, mas de alguma forma achava que não tinha de partir de mim. Fiz de propósito, queria saber quem era quem, afinal. À distância, que é sempre como vemos melhor coisas, pessoas, tudo, na verdade, principalmente nós mesmos... Achava também que não podia ser "penalizada" por ter escolhido viver outra vida e que isso não queria dizer que desprezava todos quantos tinha deixado aqui, apenas me priorizava em relação a eles, pai, mãe, irmãos e sobrinho mais lindo do mundo incluídos. Ante a família, tudo o resto me parecia, me parece, meio secundário, não despiciendo, no entanto.


Chorei muito, queixei-me demais, cobrei... Quem tinha culpas no cartório e guardava ressentimentos retaliou, quem me abraçou e me recebeu sempre de braços abertos, fosse e voltasse tantas vezes quantas precisasse, ficou quieto, sem se sentir minimamente culpado, sequer atingido.
Não me ocorria que as pessoas tivessem a sua vidinha, os seus problemazinhos pra resolver, só me via a mim e ao meu umbigo. Ao facto de estar longe, muito longe, completamente sozinha, meio abandonada e um pouco perdida, talvez ligeiramente assustada.

Da minha parte, era-me mais fácil cobrar e ressentir-me com umas pessoas do que com outras, sem que nenhuma delas me tivesse escrito tanto assim. Talvez então o problema fossem essas pessoas especificamente, a minha relação com elas, a forma como as via, o não se encaixarem mais no modelo de vida que quis abraçar. Resultando que, afinal, o vínculo não era nem tão forte nem tão estreito, percebendo, eu e eventualmente elas, que não nos fazíamos grande falta, afinal.
Demoro para me desvincular, sofro de síndroma de abandono, para mim é como se fosse sempre a primeira vez. Talvez o meu inconsciente reaja a essa dor da mesma forma que reagiu da primeira vez, sei lá eu quando foi, daí que, e inconscientemente também, não queira nunca, jamais, em tempo algum, voltar a passar por ela. É este tipo de trauma que nos faz ficar muitas vezes emocionalmente presos a quem não acrescenta em nada à nossa vida, apenas nos destrói.

O tempo passou, eu fui, voltei, fui, voltei, e talvez agora, só agora, tenha aprendido que gente que desaparece da nossa vida sem deixar rasto é eventualmente o melhor que nos pode acontecer. Não temos mais nada para trocar, mais nada de produtivo para dizer, mais nada com que crescer. O vínculo esvai-se com o tempo, o sentimento de fundo fica, mas o contacto diário carece de sentido, a lembrança, o ocupar a cabeça com isso deixa de ser viável, porque nada de verdadeiramente produtivo vem daí, apenas estamos unidos por uma necessidade esquizofrénica do mundo comum, das regras ditadas sabe deus por quem, com as quais nem sequer nos identificamos, as do bem fazer, do assim é que deve ser, do tens de e do não podes tal.

Fui e vim e fui e vim e fui e vim. E há os que se mantiveram, pessoas que são emigras como eu, que não vejo há anos sem fim - um deles mandou-me um mail no outro dia só pra me dizer que não estou sozinha e, no caso concreto, sei que não estou, foi dos poucos que me deu, e continua a dar, verdadeiras provas de amizade... - e as que moram, pessoas a quem tenho vontade de ligar assim que chego, que tenho vontade de ver, sem obrigações, sem esforço, sem sentido do dever, nada, apenas prazer, amor, vontade de estar, de ver, de ouvir, de saber, de matar saudades, acima de tudo.

Com uma delas falei hoje, liguei-lhe, não me via há um ano e atende o telefone assim: olha, o que é que te deu? Caí numa gargalhada gigantesca até que ele percebeu: ah, ‘tás cá, então, ‘tás boa?

Não há muito tempo talvez me tivesse caído mal - não pela pessoa em si, não duvido, e aí é que está..., dos seus sentimentos por mim, nunca duvidei, jamais, sem que ele precisasse de os verbalizar a toda a hora - mas sei lá pelo jeitinho português. Hoje ri-me, e muito, da forma brutinha com que expressamos amor, afeto, sentimentos. É o mesmo a quem atribuo a expressão: “essas paneleirices do amor”. E não me poderia ter rido mais e ter ficado mais feliz de o ouvir reagir assim.  

*
Pensei em chamar ao texto: "tu partiste e não voltaste", numa homenagem a esse grande emigra chamado Dino Meira, mas não consegui ter a certeza do autor. Optei por esta, que já muito me fez chorar e é linda demais, demais. 

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