31.12.11

São Paulo, a História.


Foi muito próximo de onde é hoje o marco zero da cidade de São Paulo que, no verão de 1554, um grupo de padres portugueses ergueu uma pequena casa de barro sob os olhares curiosos dos índios tupiniquins. Longe de saber no que se tornaria São Paulo, os padres jesuítas apenas construíram uma pequena cabana onde ensinariam aos índios os santos sacramentos da igreja católica.

O local escolhido pelos padres para erguer o colégio dos índios ficava distante de tudo, no alto da Serra do Mar, numa colina de formato triangular, que se elevava entre os rios Tamanduateí e Anhangabú. Durante mais de 300 anos a vila ficaria limitada ao topo desta colina. A São Paulo dos primeiros tempos era uma vila isolada e esteve, por várias vezes, ameaçada de abandono pelos próprios moradores ou por falta de recursos.

E porquê no alto de um planalto?
O início da colonização do Brasil está directamente relacionado com a busca de riquezas no interior do continente, de onde surgiam notícias de tesouros fabulosos. A fundação de São Vicente, a primeira vila do país, no litoral paulista, tinha esse propósito. Martim Afonso de Souza desembarca onde seria São Vicente, em 1532. O comandante imaginava ser ali uma boa porta de entrada para as expedições em busca de riquezas no interior do continente. Ao chegar, conhece João Ramalho, um suposto náufrago português já estabelecido há tempos na região do planalto, casado com a índia Bartira, filha do cacique tupiniquim Tibiriça. João Ramalho era um patriarca muito conhecido e respeitado pelos índios. É ele que leva Martim Afonso pela serra acima, pisando mesmo a terra onde São Paulo seria erguida.

Fazia parte da tradição indígena presentear os recém chegados com mulheres. Já São Vicente crescia e o jesuíta Leonardo Nunes, que começaria o trabalho de catequizar os índios, logo ficou a saber que homens brancos viviam amancebados com as índias no planalto, ou no campo, como se denominava a região serra acima, e resolveu conferir. Estabeleceu contacto com aldeias de índios e conseguiu reunir algumas famílias de brancos e mestiços em torno de uma igrejinha. Este povoado daria origem à vila de santo André da Borda do Campo, em 1553. João Ramalho era capitão-mor da Borda do Campo, cuja influência foi decisiva para a fundação e segurança da vila.

Nesta mesma época o jesuíta Manuel da Nóbrega veio para São Vicente para continuar o trabalho de catequização dos índios. Indispôs-se com os portugueses da vila pois convenceu-se de que a evangelização dos índios deveria ser feita longe da influência dos homens brancos corrompidos, de preferência num local afastado que seria o embrião de uma nação pura e cristã. Decide assim transferir o colégio para 12 km dali. Era o planalto entre Tamanduateí e Anhangabú, que se não foi berço de uma nação pura e cristã acabou por dar origem a São Paulo.

A inauguração do colégio aconteceu durante uma missa a 25 de Janeiro de 1554, dia da conversão de São Paulo, data que entraria para a história como a da fundação da cidade. Aos poucos os padres foram convencendo os índios a morar em torno do colégio. São Paulo virava então uma aldeia de índios comandada por padres. O colégio é ampliado e o terceiro governador-geral da colónia determina a mudança da vila de Santo André para a colina dos jesuítas. O local, alto e cercado por rios, era perfeito do ponto de vista da segurança e contava com água com fartura. Aqui foram erguidas as casas e a Câmara Municipal. O nome foi mudado e a vila passou a chamar-se São Paulo de Piratininga. Na nova vila as casas começava a brotar aqui e ali. Muitas delas não passavam de ocas de índios disfarçadas. Dormia-se em redes comia-se comida de índio e o tupi era tão falado como o português.

No final do séc. XVI começaram a chegar outras ordens religiosas, que iam construindo as suas igrejas. As praças ou largos em frente a cada igreja eram os palcos principais do quotidiano da cidade. Nos largos acontecia o melhor da vida cultural da época. Mas ainda estava longe o tempo da agitada vida nocturna paulistana. Todos os dias às 8 da noite tocavam os sinos. Era a hora de recolher. Na noite de São Paulo daqueles tempos reinava a escuridão e o silêncio. Sair à noite para passear ou apreciar um bom jantar só se tornaria um hábito dos paulistanos nos últimos 40 anos, quando a cidade se tornaria informalmente a capital mundial da gastronomia.

Os Bandeirantes
A partir de 1600 uma nova actividade iria mudar a rotina da vila: as bandeiras, expedições sertão adentro para explorar riquezas, ampliar o território e caçar índios. Capturados por bandeirantes como Fernão Dias e Raposo Tavares, e em quantidade cada vez maior, primeiro no planalto paulista e depois em áreas do Paraná e do Paraguai, os índios serviam de mão-de-obra nas fazendas de trigo e criações de gado que se espalhavam nas imediações da vila. Antes de irem para as fazendas os índios capturados eram colocados em aldeamentos, que mais tarde deram origem a diversos bairros, inclusive da actual grande São Paulo, tais como Embu ou Guarulhos.

A actividade de caça ao índio era fortemente contestada pelos jesuítas, que se opunham à escravidão dos nativos. Os bandeirantes irritaram-se tanto com os jesuítas que os expulsaram, em 1640, retornando apenas 13 anos depois.

Em 1690, com a descoberta de ouro na região de Minas Gerais pelos bandeirantes paulistas, ocorre uma fuga em massa para a região e a vila esvazia-se. Mesmo assim, São Paulo tomou o posto de São Vicente como capital da capitania. Afinal, era o ouro que interessava e São Paulo oferecia acesso mais fácil a Minas Gerais.

Em 1711 São Paulo foi elevado à categoria de cidade. Só que não surtiu grande efeito pois a vila continuava a ser abandonada pelos moradores, que continuavam a partir para Minas Gerais.

Os primeiros sinais de real prosperidade em São Paulo viriam apenas na segunda metade do século XIX com o início da era do café. Até 1870, mesmo com a iluminação pública a gás e os primeiros bondes puxados a burro, havia apenas 30 mil habitantes na cidade. Nos 20 anos seguintes, São Paulo dobrou de tamanho e chegou a ter quase 65 mil habitantes. No entanto ainda era bem menor que o Rio de Janeiro, ficando também bem atrás de Salvador, Recife, Belém, Niterói, Fortaleza e Cuiabá.

De qualquer forma já era um feito incrível para aquele povoado surgido ao redor de uma paupérrima casa de barro, isolada no alto da serra. Quase nada perto da metrópole que se tornaria, hoje a 5ª maior do mundo. 

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