6.8.12

Notícias da nossa terra V



Enquanto a declaração para o visto não chegava, fui tratando de responder aos pedidos do Gabi e da Vanessa. Café pra ele, quilos, e Moscatel de Setúbal para ela. Não me deu muito trabalho, foi fácil, a vida de todos os dias em Lisboa é fácil, as dimensões territoriais são minúsculas, comparadas com as de São Paulo, e tem menos dez milhões de pessoas... Com lugares para estacionar e lojas vazias torna-se mais fácil ainda. Setúbal, terra de bom peixe, a sul de Lisboa, já banhada pelo Sado. 


Antes de ir, uma amiga havia me perguntado do que eu tinha mais saudades, dando como exemplo comida de mamãe. No momento não me ocorreu nada, mas, já em casa, mudei radicalmente de ideias. Comi todo o queijo que pude, na boa, vocês aqui não sabem o que é queijo, todo o peixe que consegui, não toquei numa lasca de bacalhau, dourada é muito melhor, apesar de a acompanhar com arroz e de escandalizar o meu pai por causa disso. A tradição é comer com batatas cozidas, mas tenho sempre a sensação de que batatas, bem como qualquer outra coisa cozida, é comida de gente doente. Broa de milho aos quilos, pão como deve ser, sopinha de mamãe, arroz de mamãe, o melhor do mundo, até brilha, o bagulho, e outras coisas de que não me lembro.  O meu pai não gosta nada de massa e nós somos quase chineses com esta história do arroz, mas o da minha mãe é soltinho, muito melhor, portanto, não gosto de comida aos grumos, muito menos sei comer com pauzinhos sem a ajuda do elastiquinho. Saudades mesmo tinha de pasteis de nata, de queijo, de cabra, ovelha, e tal, e de peixe que sabe a peixe. E de azeitonas, pra lá de boas, as azeitonas das oliveiras do Alentejo.


Outra coisa que fiz questão absoluta de fazer, faço sempre, sempre, foi de ver o mar e de fazer a marginal, a estrada que orla a costa de Lisboa e que nos conduz até Cascais. É linda demais, demais... Tem uma linha de trem, nós dizemos combóio, que percorre o mesmo caminho, com vista para o mar, tornando a viagem de pouco mais de meia hora numa experiência inebriante. Infelizmente, não cheguei ao Guincho, point de wind surf e das praias mais lindas do mundo, onde o mar é aberto, isso é muito português, quase não há baías, daí que a terra - as nossas praias são rochosas, não há lugar a verde, característico do litoral paulista - quase não interfere com o olhar, muito menos ao ponto mais ocidental da Europa, o Cabo da Roca, mas já valeu.

Os portugueses são, em geral, muito ligados ao mar, pela parte que me toca, gosto da ideia de não ter fim, tornando as possibilidades infinitas, sem limites, só os nossos nos tolhem, a possibilidade do horizonte, outra vez... Atrai-me o não saber o que está por debaixo daquela massa azul, que nunca é igual, nem sequer da mesma cor, o reflexo da luz do sol - que brilha sozinho, lá longe, num céu completamente limpo - naquele azul, um tom que não consigo definir, onde não interfere o verde da paisagem, como acontece frequentemente aqui, um mar sem barcos, sem ondas - os efeitos do vento nos movimentos da água são quase imperceptíveis - sem nada que  nos distraia, que nos faça desviar os olhos da infinitude daquele mar, com todos os seus mistérios, toda a vida que não vemos, só mergulhando, é regenerador, mesmo que não tivesse tido coragem de entrar, é gelado de doer nos ossos, o Atlântico do lado de lá. A última vez que o tinha visto foi no litoral paulista, dessa vez entrei, mesmo revolto, não resisti e a temperatura estava boa,  é regenerador o contacto da água do mar com a minha pele, transformador, quase mágico. Só percebo a falta que me faz quando o vejo. É uma questão de sobrevivência, imagino, e nesses momentos, depois de não o ver durante muito tempo, o que acontece com frequência desde que vim para São Paulo, fico uns bons 5 minutos a olhar para ele, sem conseguir ouvir nada nem ninguém à minha volta, nem mesmo as vozes dentro da minha própria cabeça, sabe deus o quão difícil é calá-las... Isto é das coisas que mais intriga um amigo muy querido, como é que consegues viver numa cidade sem mar. As prioridades são outras...    

Mais uma vez, e isto foi algo inédito também, em momento algum me passou pela cabeça não conseguir o visto. No máximo teria de adiar a viagem, caso a declaração original não servisse e tivesse que esperar por outra, que pedi, não fosse o diabo tecê-las, e que chegou na segunda-feira seguinte à minha partida. Para isso contei com a colaboração de um professor, de amigos queridos, quando é o que há a fazer, mesmo, de facto, de coração, o universo conspira a favor e põe-te as pessoas certas no caminho. Preferia ter usado essa, garantia-me dois anos aqui, e não um, mas não chegou a tempo. Sabia que era uma questão de um dia ou dois, mas implicaria comprar outra passagem, nós dizemos bilhete, porque aquele, dizia a bosta da Ibéria, era uma promoção e não permitia alteração de datas. 1030€ o bilhete, promoção é o cacete... 

Sabemos bem que vai além da racionalidade, que só responde aos padrões do mundo, que pode ser bem exigente nesse quesito. Mas, agora que penso nisso, o mundo, externo, claro, só nos exige justificações sempre que a nossa convicção não é plena, a convicção que vem do mundo interno, do coração, e não do externo, da cabeça, a tal que responde adequadamente aos padrões do mundo, pelo menos do ocidental, malditos gregos... Ainda assim, agora é a tua vez, o que é que em São Paulo te tolhe e em Portugal se solta?

Aqui me despeço, com uma frase de uma música portuguesa, que caracteriza as despedidas das cartas antigas, as que se escreviam à mão e demoravam dias e dias para chegar, causando ansiedades várias, típicas de quem está longe e anseia por notícias, e que reza assim:

Um abraço desta que tanto vos quer [no sentido de querer bem, não de possuir... - falamos a mesma língua e entendemo-nos e desentendemo-nos o tempo todo, diz o Alê, com alguma graça - sem beijinhos, nós conseguíamos ser ainda mais formais...],
I

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