4.8.12

Notícias da nossa terra III


A nossa galera, mais do Alê do que minha, mas é gente que viajou o mundo e por isso de fácil acesso e cabeça mais aberta, a grande maioria já conhecia, ia chegando aos poucos. Lá, no Adamastor, encontrei a Susana, que acabava de decidir que era tempo de fazer o que queria e não apenas de ganhar dinheiro para pagar contas. Contou-me dos seus planos e eu, que até então tinha visto resignação nos rostos do meu povo, comecei a ver, isso sim, cada vez mais pessoas à minha volta a viver de acordo com as demandas do mundo interno, e não apenas respondendo às do mundo externo, que te exige que tenhas um trabalho decente, cuja decência não é definida por ti, mas pelo mundo, pagues contas, consumas, te endivides e fiques preso em ti mesmo, de forma a que vivas direitinho dentro do sistema, que controla cada passo que dás. Depois dela vi outras, pessoas que aproveitavam o desemprego para criar, para fazer o que sempre lhes deu prazer e do qual abdicaram durante imensos anos, por conta de levar uma vida como a de toda a gente, de acordo com os padrões do mundo e não dos seus próprios padrões, os do self, claro. Confesso que me surpreendeu e por isso te disse que desta vez foi bom. Percebi a tua risada, não és o único a dizer que não entendes como troco Lisboa por São Paulo, pelo Brasil, digamos assim. E que não entendes o que vejo aqui. Vejo colaboração, entre-ajuda, humanismo, solidariedade, nós tendemos a ser solidários apenas na desgraça, e espírito de conjunto, estou plenamente convencida de que esta é uma herança dos índios, mais do que uma característica dos povos abaixo do equador, embora reconheça que essa linha tenha alguma influência no modus vivendi dos povos do hemisfério sul. Vejo as pessoas mais soltas, a aproveitar mais a vida, fazendo o que lhes dá prazer, tentando viver o melhor possível, divertindo-se sempre que dá, numa combinação entre o que o mundo lhes exige e o que o self lhes demanda, numa cidade tão cara, tão grande e tão caótica quanto a nossa São Paulo. Não vejo competição, concorrência entre pares, amigos, pessoas queridas entre si. Vejo criatividade, vejo música, vejo expressão do self, nem que seja só ao fim-de-semana.

Também foi bom porque consegui escrever. Das coisas que mais me deixa em pânico quando vou à nossa terra é o medo de que a minha portugalidade me tolha ao ponto de deixar de o fazer, escrever, como desenvolvi aqui, de uma forma autêntica, minha, só minha, do meu self e não do meu ego, muito menos da minha persona. Herança do jornalismo literário, que, na verdade, só veio confirmar o que sempre acreditei e que a minha terra, aqui é mesmo só minha, condicionou ao ponto de me tolher a vida toda. Desta vez isso não aconteceu, o que também me surpreendeu, pela positiva.

Precisava de um visto novo, esse foi o principal motivo da minha ida a Lisboa, quase forçada, portanto, o que ocupou muito dos meus dias, que não foram assim tantos, não chegou a um mês, se falarmos de Chronus, porque Kairos é outra história. Uma coisa é o tempo contado no relógio, no calendário, outra é o tempo mental, o tempo abstrato, o tempo que não corresponde aos 60 minutos, mesmo que dure uma hora. É o tempo da nossa cabeça, o tempo que nos levamos a habituar, a adaptar. O tempo de cada um, que varia, sabemos bem o quanto varia, independentemente da implacabilidade do tempo do relógio. Não tinha garantia nenhuma de o conseguir, ao visto, bem entendido, mas, ainda assim, fui tratando de toda a papelada necessária e que dependesse exclusivamente de mim. Não tinha, como te disse, garantias nenhumas e ao fim de uma semana soube que o visto que tinha pensado não ia rolar. No entanto, tinha a benção e a influência do Florestan, que apadrinhou esta minha causa, a da portuguesa mais brasileira que ele conhece, palavras dele. Nunca na vida poderei pagar-lhe pelo que fez, são coisas que não se pagam com dinheiro, embora possam ser calculadas até com os dedos das mãos, mas a generosidade afetiva, bem como o tempo dele, do qual abdicou em prol da minha causa, não têm preço em espécie. Além disso, ele foi incansável durante todo o processo. Mantenho as melhores relações com a nossa representação em Lisboa graças a ele, que me abriu a porta que dava entrada direta para a sala do chefe máximo da instituição. Um pedaço de chão com a fotografia da presidente e a bandeira verde e amarela gigante, que me fez sentir logo em casa, apesar da formalidade característica do espaço. Uma sala grande, enorme, ampla, com um pé direito altíssimo, típica dos edifícios antigos de Lisboa, cheia de janelas com vista para o Camões e cujas portadas estavam meio fechadas, ou semi-abertas, por causa do calor abrasador que se fazia sentir, evitando que derretessemos lá dentro. A partir daqui, conquistei-o, com a minha ousadia, contando-lhe a minha história, falando-lhe de coração para coração. O chefe máximo da instituição é carioca e se à entrada o cumprimentei com um aperto de mão, conheço bem a formalidade da diplomacia, à saída despediu-se de mim com um par de beijos, código que valeu para todos os encontros que tivemos depois. Não foram precisos muitos mais, resolvíamos muita coisa por e-mail e por telemóvel, celular, número pessoal dele, que me foi passado logo nas primeiras trocas de e-mails, também elas via e-mail pessoal dele, e não via e-mail de trabalho, cujo domínio começa por i, certamente saberás qual é, das instituições mais importantes da tua nação. É diplomacia mas é brasileira, logo, mais informal. Essa é outra das coisas que me agrada aqui, mais propriamente em São Paulo, a cidade mais europeia do Brasil, digam o que quiserem do sul, porque mais distante, mais equilibrada, mais fria, segundo o resto dos brasileiros, mas que não vejo assim, vejo antes como mais independente, mais cosmopolita, mais respeitosa, mais séria, mais na sua. A arquitetura pouco me diz, apesar de gostar de cidades bonitas, com edifícios antigos e bem cuidados, mas tenho de conviver com gente e não há brasileiro mais parecido com os europeus do que o paulistano, com a vantagem de ser brasileiro e, por isso, mais disponível emocionalmente, mais suave, mais sorridente e mais aberto. Dizia-te, então, que isso era outra das coisas que me agrada aqui, que vejo aqui, para usar palavras tuas. Tu não precisas de estar sempre de trombas e muito menos de manter a distância para impor respeito. Até porque o respeito não se impõe, vem naturalmente. Ou deveria...

[Continua...]

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