10.10.11

Definitely Not London

Foi bom o fim-de-semana. Foi bom poder passear com a Louise por Londres e ao longo do Tamisa. Estava gente para caraças na rua porque o sol brilhava, coisa rara como se sabe.


Falámos imenso e foi como se não nos víssemos desde o dia anterior. A última vez que tal acontecera, contas para aqui e para ali, tinha sido há 4 anos. Acho que é muito bom sinal. Há muito à vontade de parte a parte e a satisfação de poder estar com alguém que conheci há 7 anos, como se fosse ontem, e descobrir que continua um ser humano fantástico, é muito boa. Nas circunstâncias em que isso aconteceu então torna-se melhor ainda.

Apesar de tanto Jesus Christ a propósito de tudo e de nada não senti qualquer tipo de lavagem cerebral e ela, pelo menos comigo, quase não se pronuncia. Ouve-me e tenta perceber as minhas crenças. Não julga nada e muito menos me tenta convencer do que quer que seja. A isto chama-se respeito, que cada vez sinto menos...

Fiquei a perceber as diferenças, pelo menos as básicas, entre a igreja evangélica e a católica, porque lhe perguntei. Respeito essas diferenças e acho que é pelo menos mais honesta que a católica. Eles limitam-se a ler a Bíblia e não a interpretá-la a seu bel-prazer. Ao menos não há sentimentos de culpa como os que nos fazem sentir na igreja católica, que acho horrível há já muito tempo e que duvido muito que Deus nos queira fazer sentir como tal. Os sacrifícios fazem parte, tal como nos católicos, e esta igreja desempenha um grande papel na ajuda aos mais desfavorecidos. A quem a procura.

Na véspera estive a ajudar a família na sala onde iam ser os comes e bebes. Iria ser um casamento modesto, principalmente quando comparado com os nossos, que parecem todos de membros da família real, a avaliar pela quantidade de comida que há sempre. Somos todos ricos e eu nunca dei por isso!!! E fiquei contente por poder ajudar. E mais ainda por conhecer uma família da qual apenas tinha ouvido falar.

À noite houve um jantar em casa deles, com membros da família dos dois e uns quantos amigos convidados para o dia seguinte, porque ela teve o cuidado de o organizar para que as pessoas se pudessem conhecer, independentemente de prever estar de rastos e num stress - como estava mas sempre de sorriso nos lábios, de felicidade, ainda que lhe fosse estranho ver pessoas de tempos diferentes todas juntas - já que o casamento ia ser no dia a seguir.

Quando cheguei, juntamente com os irmãos dela, à sala onde já estava um monte de gente nova, e depois das apresentações, ficou tudo calado. Um silêncio típico da maioria dos mais nórdicos já que os latinos não são de ficar quietinhos e calados, ainda que se trate de um primeiro encontro. A música tocava baixo, típico, e as pessoas falavam aos pares, baixo, mais típico ainda! Poderia ter posto a música mais alto e desatar a falar para a esquerda e para a direita. Ou a dançar, a ver se ao menos se riam. Mas não. E antes que fosse tarde, e porque o constrangimento do silêncio me incomodava cada vez mais, fugi logo dali, preferindo ir lá para baixo com o pretexto de ir buscar uma buja, juntando-me aos irmãos, que entretanto já se tinham pirado, e ao pai, e, com a sempre boa desculpa, instalei-me lá fora a fumar cigarros e a beber copos enquanto as pizzas estavam no forno. E aí curti.

Depois do jantar, quando cada um foi para seu lado, pois claro que amanhã temos de nos levantar cedo, ainda fui beber uns copos com os irmãos, em que deu para tudo. Para me rir imenso com os dois, especialmente o mais novo, e ter conversas interessantes com o mais velho, que vive na Dinamarca há já alguns anos.

Nota-se bem a diferença entre um inglês viajante e um que nunca tenha saído do país de origem. Mas acho que, mais coisa menos coisa, acaba por ser a mesma que se nota entre uma pessoa que tenha vivido outras realidades diferentes da sua e uma que viva apenas no seu país, ainda que com viagens esporádicas, normalmente cheias de excursões em que vê apenas o que outros olhos querem que veja. Enfim, cada um sabe de si.

A cerimónia foi demasiado evangélica para meu gosto mas bem bonita. Só não me convenceu a parte em que numa leitura se disse que a mulher deve ser submissa ao marido (tal como Jesus Christ é submisso à igreja) e acho que a ela também não deve ter convencido grande coisa. Enquanto esperávamos, dentro da igreja, que eles assinassem a papelada estivemos entretidos com o organista que era engraçadíssimo, embora não tivesse percebido metade do que disse.

E depois de muita pose para as fotos da praxe, os noivos posam para que os convidados tirem as fotos que lhes apetecer, e mais umas quantas tiradas no parque, pelo fotógrafo de serviço, aí vamos nós para os comes e bebes. Tive a sorte de ficar sentada ao lado de um amigo da família há anos, mais agnóstico seria impossível, que me explicou que normalmente os casamentos não são TÃO religiosos. Tipo, não se dá graças antes de se começar a comer!!! E que as máquinas fotográficas descartáveis que estavam nas mesas fazem parte dos costumes. Para que os noivos possam ver as figuras que os convidados andaram a fazer, depois de uns bons copos para dar coragem ao primeiro dos comensais para pegar na máquina e tirar as primeiras. O mote está dado. Agora é até acabar o rolo.

Professor de química de miúdos dos 11 aos 16, para os quais afirmou ter paciência. O que é que se faz com um livro? Lê-se e pronto. Mais vale explodir com qualquer coisa. "Queres mais vinho?" "Não sei se deva... Mas vá lá, que não recuso um copo de tinto." "Seria rude fazê-lo..." "Essa é pelo menos uma óptima desculpa!!!"

Não houve direito a bailarico mas a música era boa. Uma banda jazz que me fez voar até ao Brasil em determinada altura. Fiquei ainda mais bem disposta, o tintol já tinha desempenhado o seu papel e a companhia ajudou.

O pai dela é uma simpatia, ri-me o tempo todo com ele. Um bem disposto e o único que fumava. Com maços de cigarros a custarem para mais de uma fortuna só me admira é como é que há alguém que fume... Carregadinha de Marlboros até mais não, estive-me bem a borrifar e fumei os cigarros que me apeteceu. Não há uma beata no chão e é proibido fumar em todo o lado.

Os irmãos são melhores ainda. Uns queridos! A irmã é tímida e a madrasta demasiado stressada para poder avaliar, pelo menos pelas 1ªs impressões, se são tão fantásticas como o lado masculino da família. Mas não tive razões de queixa desta família tão simpática que me acolheu como se dela fizesse parte.

Os ingleses são tão organizados que até irrita. Eles que têm a mania do: not to be rudeconseguem fazer com que sintamos que o são bem mais do que nós. No princípio faz-nos sentir: sim senhor, assim funciona. Mas tanta organização tira um bocado a espontaneidade e dá-me ideia que o sangue lhes corre pouco nas veias.

A não ser quando se embebedam que nem loucos, os bares fecham às 11 e até lá é emborcar quantos copos conseguirem. As figurinhas são embaraçantes. Só se ouvem gritos na rua, gajas perdidas de bêbedas a cair e aos berros. Gajos a gritarem impropérios, a quem passa, às paredes... Dando a sensação que gritariam com eles próprios se para isso tivessem coragem.

Não são só os rapazes que se pegam ao estalo todos os dias, sempre que se embebedam. É horrível. Mesmo que não saiam para andar à chapada acabam por fazê-lo porque parece que é o que todos procuram. E raparigas idem. Tanta repressão é no que dá, foi a ideia que me ficou.

Ouvem-se sirenes de manhã à noite, vê-se demasiada gente a dormir na rua, bem novos, e só se ouve falar de women assaulted, não só em Londres.

Desvios de comportamento em demasia, com uma frequência assustadora. Deprimente viver em Londres!!! E caro...

Mas o sentido e tipo de humor deles não há povo que bata! E as saudades que eu tinha de ouvir um delightful British accent!!!

Fez-me bem, como sempre que viajo. Descubro sempre qualquer coisa que para o bem ou para o mal me faz despertar. Neste caso foi a solidão, que é muito boa quando nos limitamos a gozá-la, sabendo que de facto não estamos sozinhos. Porque quando o sentimos, ainda que por breves instantes, pode ser desesperante. E o facto de em Inglaterra, como em todo o lado, estou em crer, haja fé, haver pessoas que se preocupam com os outros sem ser necessariamente por imposições religiosas. Os irmãos e pai dela não têm nada a ver com qualquer tipo de religião e foram do mais atencioso possível, sem exageros, para que nunca me sentisse desconfortável.

Fez com que me lembrasse de dar mais valor ao país em que vivo, cujos hábitos e costumes me andavam a irritar bastante ultimamente.

No, definitely not London.

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