27.8.11

Teresa Batista

Estou como a Teresa Batista, cansada de guerra... Deixei de ver telejornais há muito tempo, mas de vez em quando ligo a TV e o telejornal ainda não acabou. Como ontem. Depois de ver horas e horas de notícias sobre a Líbia, em que os gajos se apresentam de armas na mão como quem carrega sacos de compras, sim, eu sei, a Líbia está um caos, as notícias que se seguiram foram de pais com idade para serem avós que violaram filhas e tiveram dezenas de filhos com elas. E se preparavam para violar netas. E é tudo assim, umas notícias atrás das outras. Só desgraças, só violência, só merda. E vou-vos dizer, o JN não é pior do que o jornal da SIC ou da TVI...

'Tou cansada de guerra, cansada de violência. Num país onde as armas andam soltas na rua é muito comum ouvir notícias sobre. De cada vez que há uma operação stop, blitz, como lhe chamam aqui, a polícia está armada, mesmo, como quem vai para a guerra. E não são as armas com que andam durante o dia, são armonas, grandes, não sei o nome, mas não são pistolinhas nem revolveres... De cada vez que param alguém na rua, porque está a fumar um ou por algum outro tipo de ilegalidade, os gajos estão de arma na mão e dedo no gatilho. O pessoal já nem esquenta, encosta-se de mãos à parede, como nos filmes, sem esperar as ordens da polícia. E a polícia reage assim por reação. Porque se não for assim, correm eles o risco de ficar logo ali. É guerra... O mesmo acontece quando vão os camiões sacar ou pôr dinheiro nos caixas eletrónicos. Os seguranças estão de arma na mão e de dedo no gatilho, prontos a disparar.

Infelizmente é mesmo uma guerra, contra assaltantes, contra o tráfico, contra a violência em geral. E o que fazemos? Carregamos armas. Não me deveria chocar, já aqui vivo há algum tempo, mas talvez por ter nascido na Europa - onde nunca, nunca se vê uma arma em punho, os polícias passeiam-se na rua com as armas nos coldres na maior das naturalidades, aqui, se eles estão de mãos atrás das costas e as armas nos coldres, elas estão presas, com um gancho, para que não possam ser tiradas facilmente - seja uma coisa à qual nunca me habituarei. A cena das armas é uma cena pesada. Uma arma é um negócio pesado, no sentido em que se usa pesado aqui, barra pesada, denso, tenso, pior do que negativo, associado a grandes desgraças. Pesado, muito, muito pesado.

Não sei se acontece o mesmo com todos os europeus que aqui moram, se nos habituamos ao fim de um tempo, se ignoramos, se assumimos como fazendo parte do pacote, e faz, mas as armas pesam-me, a guerra pesa-me, estou como a Teresa Batista, muito cansada de guerra. Nem guerras verbais estou a aguentar mais. Eu, que tantas vezes sou esquentada nas reações, que tantas vezes dou por mim passada e aos gritos, irritada e tal, por aparentemente motivo nenhum, 'tou cansada de guerra, de discussões idiotas, de troca de galhardetes em tom elevado, agressivos. Nem posts inflamadinhos e nervosinhos leio mais. Passo adiante... Talvez por saber que não adianta, apesar de me estar no adn, de, na grande maioria das vezes, ser mais forte do que eu. Talvez seja da idade... Talvez porque estou cansada e por ter vindo a pensar nisso nos últimos tempos, por não entender como é que toda a gente não se cansa também...

O Gianechini está com câncro, em quimioterapia. E este pode ser o maior clichê do mundo, eu nem conheço o rapaz e há um monte de gente mais nova na mesma situação que ele. Mas ele é giro, mais novo que eu, rico, bem sucedido e de repente vê-se numa situação filhadaputa, com 38 anos. E, porra meu, um gajo vive em guerra, da guerra, a chatear-se com merdas, a deixar de falar por merdas, vive aos gritos, vive chateado, vive infeliz uma vida inteira, quando a vida pode acabar amanhã, e, afinal, vivemos tão pouco...

Não é pensamento positivo, não é viver feita uma idiota a rir por nada, não é achar que consigo viver sem me chatear, também sei que pra semana estou outra vez de tpm, puta da vida a desatinar e sem paciência pra ninguém, não incorporei nenhum santo, portanto, sei apenas que não precisamos de andar permanentemente em guerra para nos sentirmos vivos, que não precisamos de fazer da guerra um modo de vida, que estou como Teresa Batista, muito, muito cansada de guerra...

Por outro lado, ou talvez por isso mesmo, o povo brasileiro é dos povos mais solidários que já conheci. É um povo que acarinha, que cuida, que considera o outro, que se prontifica a ajudar, mesmo que não nos conheça de lado nenhum. É um povo simpático, que reage sorrindo, que responde com um sorriso, que sorri só de cruzar o olhar. Depois de um dia longo de trabalho, depois de apanhar 3 autocarros para chegar a casa, dentro de um autocarro em que só falta sair gente pelas janelas. O povo sorri. E isso é das coisas que mais me encanta aqui, é das coisas que me faz vir pra cá a correr, como nenhuma outra...

O sorriso é a arma mais poderosa de todas, não precisa de licença de porte, é grátis, desarma e todos temos um...

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