O mundo nas costas: carregamos o mundo nas costas. O mundo é grande demais, pesado demais para o carregarmos nas costas.
Atravessamos um oceano e esse peso não alivia. O mundo nas nossas costas é pesado demais e a gente só carrega o que consegue carregar. Eu não consigo carregar o mundo nas costas. É muito peso. A família, que faz parte desse mundo, pesa demais. A família não me carrega, eu não tenho de carregar a família. É muita pressão, uma pressão que eu acuso. Tenho de fazer escolhas. Escolhas conscientes, as únicas que me permitem ser livre. A distância, que é tantas vezes acusada injustamente de outras coisas, ajuda a ver as coisas com mais clareza. Ajuda a definir um caminho. O meu. Eu faço a minha trilha, crio o meu próprio caminho, sem olhar para trás. Às vezes ainda franzo o sobrolho, é a incerteza, é a fragilidade que tenta tomar conta de mim. É difícil afastar para sempre a hipótese de que nós não controlamos nada. Nem mesmo a nossa mente. Nem mesmo quando sabemos que estamos certos. Porque atrás já escolhemos o caminho da esquerda e vimos que não vai dar a lugar nenhum. O da direita vimos do ponto em que estávamos que era um falso caminho. Seguimos em frente com a certeza de que os caminhos percorridos nos trouxeram até aqui, mas ficaram para trás. Não precisamos de os fazer de novo. Precisamos de ir em frente, sem olhar para trás. Apenas para o lado, dar a mão, aceitar uma mão que nos puxe para a frente. Nunca para trás.
Esse peso, o peso que ficou para trás, não é nosso. A opção não foi nossa. Não podemos nem devemos ficar presos à opção que o outro escolheu. Somos apenas responsáveis pela nossa escolha. Querermos ficar para trás é, inconscientemente, escolhermos a posição que o outro adotou para si. Não para nós, por nós. Queremos ficar para trás é justificarmos a nossa incompetência pela máscara da falsa solidariedade, do falso amor. Nós só temos de carregar o que conseguirmos carregar. O mundo é grande demais para o carregarmos nas costas e o nosso mundo ninguém o carrega por nós. O nosso mundo é mais leve porque nós fazemos por isso. Porque soltámos o que só nos pesa sem nos trazer qualquer alívio. Qualquer benefício, qualquer alegria.
O nosso mundo chega-nos e sobra-nos. O outro que carregue o dele.
Mar. 2011
*Texto escrito a partir de foto
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