29.3.09

Célia

De carrapito, unhas das mãos pintadas, pulseiras no pulso e brinco comprido na orelha, essa é a Célia. Que fuma cigarros uns atrás dos outros, magrinha e com mais energia do que qualquer adolescente. A Célia põe as mãos na massa, pinta a casa, que a própria mandou reformar, trata os homens das obras com mão de ferro, manda em toda a gente e põe qualquer macho a trabalhar, a toque de caixa, se for preciso. De unhas das mãos impecavelmente pintadas, pulseiras no pulso e brinco comprido na orelha, de havaianas e coberta de cal, Célia convence até o próprio marido a ir à Leroy Merlin, que fica na pqp, sábado, já a noite caiu, pra comprar tintas, que amanhã é domingo mas é só para alguns. E ele vai, sorrindo, porque não lhe resiste. Não há quem lhe resista.

A Célia viaja mundo afora. Onde quer que chegue, desloca-se de metro, de autocarro e a pé e, sempre que se justifica, aluga um carro e conduz de Norte a Sul, conhecendo tudo quanto pode. Mesmo que a co-pilota prima não veja nada do mapa que tem na mão, porque se esqueceu dos óculos. A gente sai onde, agora? Pqp, você não vê???? O Porto fica para a próxima... Portugal ganha toda uma outra dimensão visto pelos olhos da Célia.

A Célia é o objecto de ódio de qualquer guia turística das que vão buscar uma trupe de turistas ao aeroporto e lhes impingem tudo quanto é excursão, ocupando-lhes a semana toda, querendo apenas ganhar o seu e que, assim que acaba o expediente, e sem lhes dar qualquer orientação, os larga no hotel, mesmo que sejam 6 da tarde e que os turistas só queiram ir tomar um banho e continuar a folia, porque dormir a gente dorme quando chegar a casa.

A Célia está-se borrifando para as guias turísticas e as fortunas que elas querem ganhar às suas custas, sugerindo jantares a 100 dólares a refeição. A Célia visita os lugares na mesma sem gastar essa fortuna toda. A Célia é uma líder nata, arrasta uma multidão de turistas atrás de si, que, como ela, querem conhecer mas não estão dispostos a pagar fortunas pra jantar no Moulin Rouge. Bebem um copo e conhecem na mesma, gastando muito menos dinheiro. 2 dias depois de chegarem, já todos os turistas tomaram uma decisão. A sua nova guia é a Célia.

É que a Célia fala com Deus e todo o mundo, palavras dela, e consegue chegar a lugares onde mais ninguém chega, porque os guias da Célia são os índios da Amazónia, os miúdos que transportam pessoas Amazonas fora, as senhoras e senhores com quem trava conhecimento. No mercado, na rua, onde quer que seja. E ninguém lhe resiste, porque ela tem uma graça, mas uma graça que simplesmente não dá hipótese.

A Célia fala sem parar mas também ouve. A Célia atura o consumismo da prima, da irmã e de quem mais viaje com ela. A Célia largou 40 dólares por uma roupinha de flanela, aos quadradinhos, para o cachorrinho dela. Nem ela acreditou... Quando ele morreu, enterrou-o de capinha de flanela, linda, de quadradinhos...

A Célia tem uma amiga a quem chama de doida. A doida da Maria Helena. Não hei-de morrer sem conhecer a Maria Helena...

11 comentários:

  1. tá lindo seu texto, lindo, lindo.

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  2. Hahahaha, Isa, eu já queria conhecer a célia, agora então, tá no meu top ten de prioridades para esta encarnação!

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  3. NáPaula, n podes perder :-D
    Valeu Falzuca, valeu.
    Bjs

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  4. hahaha, amei a Célia vista pelos teus olhos e falada com o teu sotaque, Isa.
    Lindo texto.
    Beijos

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  5. miuda, a Celia é gira!
    bj

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  6. :-) Linoca, ela é demais!

    A Célia não existe, Luci :-D

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  7. e eu, depois dessa descrição maravilhosa, não hei de morrer sem conhecer a Célia.

    Vim porque a Fal mandou
    bjo

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  8. amei seu texto e a célia.

    obrigada, querida.

    beijos

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  9. ver a celia e morrer, isa, é meu lema. parabéns pelo escrito .

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  10. Valeu miúdas todas :-)
    Bjs mis

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  11. Também quero ver a Célia!

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