12.8.16

Orgulho sem preconceito

Há um certo charme na decadência. No hotel onde estou, as fardas estão puídas na zona da barriga, veem-se borbotos ao longe, mas são Lacoste. Os empregados, impecavelmente vestidos e penteados. Os quartos, enormes e decorados com quarenta anos de atraso, têm minibar, vazio. As pessoas são silenciosas, contidas nas suas emoções, como só é possível ser num certo nível social, e que é tão natural quanto respirar, sem nos sentirmos oprimidos, muito menos precisarmos de berrar para sermos ouvidos. Civilizados, corajosos, no ponto, sem chegar a ofender, a ridicularizar, a agredir, passivamente ou não, marcando uma posição. Talvez seja isso que me fascina tanto na nobreza inglesa, e me afasta do popularucho português na mesma proporção. Aquela linha finíssima que separa a ofensa explícita, a violência, a agressão, da opinião, da defesa da honra, sem nunca perder a pose, baixar a cabeça, levantar o nariz. Deve ser por isso que na Boa Vista se come peixe com batatas fritas e os rapazes têm muitas vezes dois nomes próprios, um inglês outro português. Houve uma presença britânica na ilha, pelo que li, não foi amistosa. Seja como for, alguma influência, forçada ou reconhecida, os britânicos tiveram, na Boa Vista, pelo menos. Divago, para variar. As toalhas da praia, que já foram azuis, aproximam-se perigosamente do cinzento, mas existem, as dos quartos, imaculadas, mas rotas, podendo ser trocadas todos os dias, se assim o desejarmos. É o brio que me encanta, o cuidado, o insistir na beleza, no charme, na delicadeza. Não deixar descambar, manter a pose, não de arrogância, de orgulho, mas de cabeça erguida, a única forma de sustentar a dignidade até ao fim. O meu coração derrete-se de compaixão perante um cenário destes, sou incapaz de bramir uma crítica, apontar um dedo que seja, fazer uma reclamação. Se me resta alguma nobreza de caráter, é nestas horas que a identifico.
*
Sempre vi o reality check como um limite à criatividade, uma castração da imaginação, uma interrupção da fantasia. Quando na verdade o que é, é uma forma de ver em perspetiva, de pôr os pés no chão, de olhar para fora do nosso umbigo, da nossa confortável realidade. Sem cilício mental, superioridade moral, menosprezo por quem pensa, se questiona, quer mais. Apenas um reality check ocasional, para pôr as drama queens and kings que moram dentro de nós no seu devido lugar, sem necessariamente descurar a realidade que está por detrás do drama, o que me falta, do que preciso, que, na grande maioria das vezes, está muito longe de ser material, mas que precisa de ser conhecido e colmatado. Até porque satisfazer as necessidades alheias não nos resolve as nossas, se nelas não estiver incluída a necessidade de ser útil. E enquanto não as resolvermos, as drama kings and queens reinarão.

O reality check que nos permite, lá está, não nos queixarmos gratuitamente, por vício, sem que nada nos falte, sem motivos vitais para tanto. E sim, não é sem alguma vergonha que admito que preciso dele para tal. Talvez tenha sido isso que fui fazer a África. Entre outras coisas.
*
Não deixa no entanto de me chocar a divisória de pedras, artística, para não ser muito descarado, que existe entre as espreguiçadeiras onde nos refastelamos e o caminho por onde passam os locais. Este apartheid económico é tão chocante quanto o outro. Por isso fiz questão de dizer ao miúdo da receção que me viu na praia, enquanto passeava com os cães, que não lhe falei porque não o reconheci. E não porque "não gosto" de ser interpelada por funcionários de hotéis. Como quem faz questão de lhe garantir que somos iguais, eu só nasci num sítio diferente, noutro continente e numa família com condição. Apesar de ter a sensação de nem precisar de o fazer, ele, e os outros, perceberam que era diferente dos demais. Para além de falar com eles de igual para igual, não precisava que jovens adultos de 18 anos me entretessem, entediada que me sentia por estar de biquini, de papo para o ar, num paraíso escaldante, com um mar verde cinema à minha frente, enquanto eles tinham de jogar beach volei vestidos, debaixo do mesmo sol que me bronzeava, apesar de estar o dia inteiro à sombra.

10.8.16

Deserto Viana, Morro de Areia e um pouco de verde.

No deserto:
Tal como no sertão brasileiro, aqui também tudo fica verde com apenas umas gotas de chuva. A única região verde da Boa Vista:

De resto, tudo é árido, muito, muito árido... 
Morro de areia, onde ficámos atolados, eu passei para os comandos do volante, do lado de fora da pick up, sem machismos por parte dos rapazes. Alguém precisava de segurar no volante, todos precisávamos de empurrar, eu achei que seria mais útil com uma mão no volante e outra na janela e que os rapazes, por serem mais fortes, obteriam melhores resultados se empurrassem lá atrás. Só assim nos safámos. Espantou-me que nenhum deles contra-argumentasse. Bem sei que era lógico, mas ainda assim... 

Santa Mónica, Varandinha e Chaves.

Não nos podemos queixar, praias são o que não falta na Boa Vista. Nós tivemos sorte, ficámos na melhor. Talvez não seja a mais bonita, mas é certamente a melhor praia para se tomar banho, considerando rochas no chão, temperatura, ondas, cores e frequência. 

Até porque não é aconselhável ir sozinho para as praias maiores e mais distantes, precisamente por isso, ficamos vulneráveis demais a eventuais assaltos. A Boa Vista é segura, mas lugares isolados são lugares isolados. 

A praia é enorme e linda, as ondas grandes e fortíssimas em Santa Mónica. E, para evitar sermos enrolados, é ficar de lado e deixar que as ondas nos batam desta forma, de pé. Mergulhar e brincar só enquanto elas não vêm, ao contrário do que fazemos aqui. Cansei de ser enrolada nas ondas quando era criança por hesitar entre ir e ficar.  
Outra praia com uma extensão enorme é a da Varandinha, com grutas para explorar e um mar imenso para olhar. Depois de ter sido derrubada em Santa Mónica, nem me atrevi a entrar.  
Depois de termos ficado atolados nas dunas, chegámos finalmente à praia de Chaves, que fica longe, longe. 
Ao fundo, de areia branca, a nossa praia, a da Cruz, a melhor de todas. 

9.8.16

"Ousar o olhar da misericórdia"

5 meses exatos depois de te teres ido embora para sempre, estava no Cocoa, em Sal Rei, capital da Boa Vista. Tinha acabado de sair do restaurante da Bia onde não tinha almoçado, apenas bebido três super bocks minis. Era para mim um dia difícil e não tinha fome, mas as cervejas, que normalmente não consumo, souberam-me maravilhosamente. A Liliana, uma força da natureza, distraía-me da tristeza. Disfarçava o tempo à conversa com mais um guia, especialista no 4x4, enquanto as super bocks desciam redondo. Saímos dali e parámos no Cocoa, o único bar com internet. Bebi mais uma ou duas super bocks, talvez três ou quatro, não me lembro bem, enquanto me dedicava ao meu momento introvertido da semana, o que é raro, quando viajamos com outra pessoa, mas imperioso, exatamente pelo mesmo motivo. E aproveitava para matar saudades de quem estava longe. Comunico infinitamente melhor à distância, como todos os outros introvertidos. 

Reparo que a igreja com o mesmo nome que eu abriu, foi a primeira vez desde que chegámos, e decido ir visitá-la, na esperança que deus me perdoasse a ousadia de entrar em Sua casa ligeiramente alcoolizada. Quando saio do Cocoa, tive um mau pressentimento quanto às razões pelas quais a igreja tinha aberto naquele momento. Havia imensa gente encostada às paredes dos edifícios do lado esquerdo da praça, onde nos encontrávamos também, protegida do calor, e cujas indumentárias, escuras e cuidadas, deixavam adivinhar o motivo de tamanho ajuntamento, cá fora e dentro da igreja, que, de portas abertas, não chegava para tanta gente, de tão pequena. Não perguntei, mas fiquei logo ali a saber, antes mesmo de me aproximar, que era um funeral. Chego à porta da igreja e a missa era de corpo presente, estava a acabar e nem um segundo me detive, saí rapidamente. Missas do género, só a tua. E se nem a ti vi sair, não era a um desconhecido que ia prestar essa homenagem. Fui para o lado direito da igreja e esperei que alguém que estivesse com um semblante menos triste, sorrindo até, me esclarecesse. Abordei uma senhora que me disse que era um pescador, tinha uns 80 anos. Devia ser tão querido e respeitado quanto tu, independentemente da posição social que cada um de vós ocupava. O que importa é quem tu és e o que fazes, humanamente. Só me voltei para a praça e saí de onde estava quando já tudo estava resolvido. E só nesse momento consegui entrar.

Ouço os lamentos da viúva lá fora, estou mais uma vez a escrever dentro de uma igreja, como me aconteceu em Cortona, Itália, faz agora um ano, sem saber da missa a metade.

Até muito recentemente, talvez me irritasse ante a implacabilidade das estátuas de santos. Dos espinhos na cabeça, do sangue a escorrer-lhe pela testa, daquele sofrimento, pregado na cruz, lá no alto, diante do meu desespero, das minhas lágrimas, da minha impotência. Por isso, deixei de frequentar igrejas voluntariamente, pelo menos.

Descubro-as agora lugares de paz, de acolhimento, de aceitação plena, onde já não vou em busca de alguém que me resolva a vida, mas nas quais posso chorar à vontade. É o que farei, enquanto me apetecer. E de onde saio sempre mais tranquila do que entrei.

Melhor, só um banho de mar, no Estoril.

7.8.16

No deserto

O que seria de nós sem a revolução industrial e a possibilidade de nos deslocarmos para lugares distantes? Sem a ciência e o aumento da esperança média de vida, já para não falar na possibilidade de paliar a dor? Sem congelar alimentos? Sem soluções tecnológicas para tudo e mais alguma coisa?

O que será de nós se não questionarmos um sistema cuja engrenagem corre sem interrupções, mecanicamente, cada vez mais veloz, levando por arrasto todos quantos se orgulham de pensar, algo que as máquinas ainda não conseguem fazer. Calcular hipóteses, guardar quantidades de registos inimagináveis, que a nossa limitada memória jamais aguentaria, fazer diagnósticos, podem até nunca se enganar, como gostamos de dizer. Mas pensar? Pensar, não. Arranjar formas diferentes de atingir o mesmo resultado, que não sejam tão frias ou taxativas muito menos. Não, as máquinas jamais poderão substituir o homem.

Foram criadas e desenvolvidas por ele, que se encontra refém delas. Limitando-o, impedindo-o inclusive de pensar, de agir além delas, de as questionar, de as enfrentar. Para além de um inquestionável sinal de subserviência, de ausência de inteligência, é de uma falta de humanidade que começa a roçar a esquizofrenia. Deixando que se sirvam de nós, em vez de sermos nós a servirmo-nos delas. Levando-nos a perder o contacto com o que temos de mais precioso, os nossos instintos, as nossas emoções, a nossa capacidade de empatia, que nos leva a melhores portos do que qualquer máquina, que se dirige ao cérebro, ao racional, à implacabilidade da lógica, deixando o coração e a emoção de lado.

Nós, os civilizados povos do ocidente, andamos a pagar fortunas em workshops para reaprendermos a voltar-nos para dentro, a conectarmo-nos com a nossa sabedoria interna, os nossos instintos, o que temos de mais básico e mais autêntico, o que nos permite subsistir em qualquer circunstância, o nosso instinto de sobrevivência. Seguindo gurus disto e daquilo, que têm soluções apenas para si, mas que insistem fazer delas universais, em vez de incentivarem cada um a procurar as que melhor lhe convém, mais adequadamente lhe assenta, tornando-o independente e seguro para que possa tomar as suas próprias decisões, fazer as suas próprias escolhas, em vez de esperar que alguém lhe diga, a todo o momento, qual é a solução para a sua vida, como se soubessem. Alimentando um sistema que nos cria falsas necessidades todos os dias, para sustentar uma mentalidade consumista que nos enche do que não nos preenche, ao mesmo tempo que tomamos comprimidos para a ansiedade, fumamos um maço de cigarros por dia, comemos como se estivéssemos em guerra e os alimentos fossem racionados e nos acabamos num ginásio, para compensar. Insistindo em procurar placebos lá fora para tentar chegar ao que se passa cá dentro. Negando cada vez mais quem somos, afastando-nos irremediavelmente de nós.

Entrego me rápida, fácil e de forma muito eficaz a essa nobre arte de não fazer nenhum, é um dos meus inúmeros talentos. Mas dei por mim a perguntar-me o que as pessoas fazem aqui, na Boa Vista, já que não se passa nada e poucos são os recursos. Logo me ocorreu se se perguntariam o mesmo, o que fazem estas pessoas aqui, se lá no continente deles têm tudo e nada lhes falta. Na neurose ocidental de ocupar a cabeça, aproveitar o tempo. Na dificuldade que temos em ficar quietos, imóveis, contemplativos. Na melancolia que me invade quando vejo os velhinhos nas soleiras das portas, a ver quem passa, tristes e de olhos vazios.

Depois fui ao deserto. E aquela imensidão de terra sem fim que só existe em África, aquele quente e reconfortante silêncio, aquelas dunas perfeitas e a implacabilidade daquelas montanhas apaziguaram-me. Há um conforto imenso na possibilidade de aceitar, sem tentar resolver, arranjar compensações, soluções de compromisso, intermédias, que satisfaçam o ego das partes. Sem fugir. Viver, simplesmente, em simbiose. Confiando que tudo está no seu devido lugar, se resolve, desde que me mantenha conectada comigo mesma e próxima da natureza.

5.8.16

Olá e um sorriso

Cabo Verde dá vontade de ter filhos, lá, com locais. Às dezenas, as crianças andam livres pelas ruas e pela praça da cidade, aos pares ou sozinhas. Correm para nós e abraçam-nos as pernas. Quando passamos, sorriem com a boca e os olhos e dizem olá, ou ciao, habituadas aos italianos. Algumas não, as maiorzinhas, normalmente meninas. Fazem inclusive caretas e devolvem-nos uma cara enjoada quando as abordamos com um olá, respondo-lhes com uma gargalhada. Outras fazem poses assim que vêm uma máquina ou um telefone.

Quando pergunto: quem me dá um abraço, ela abre um sorriso e os braços.
Tem 13 anos e passa além das pedras que, alinhadas, lhe dizem por onde pode caminhar, como se a praia tivesse dono e a ele só coubesse um corredor, o resto pertence ao hotel e aos seus hóspedes. É o caminho para a sombra, debaixo da qual uma família inteira faz a cachupa ao domingo e por lá almoça, protegida do vento, nas rochas que vão dar a uma pequena praia que só existe na maré baixa. Depois da sombra, não estou certa onde, há de haver um local bom para a pesca. É para lá que se dirige, para voltar com o almoço para a família inteira. Não há atividades extracurriculares para as crianças da Boa Vista, há peixe para pescar e levar para casa, onde a mãe o cozinhará. 

Uns dias depois, voltamos a cruzar-nos, já mais para o fim do dia. Íamos ver o que havia além da sombra, que fica por baixo da estrutura coberta, onde os turistas bebem uns copos ao fim do dia. Estrutura essa que também serve de encosto à família, que ali almoça cachupa ao domingo. Estava com um amigo. Mais à frente, é advertido. Olha, deixaste cair um peixe. Surpreso e meio em pânico, diz alguma coisa em crioulo ao amigo, que não conseguimos ouvir, e vem a correr resgatar o peixe perdido. O rosto ilumina-se e abre um sorriso, enorme, acho que foi o maior e mais genuíno que vi: Obrigada, diz. Talvez fosse o peixe que lhe cabia, talvez o tivessem poupado de ficar sem jantar.

Estamos dentro de água e um miúdo italiano de uns 8 ou 9 anos, com uma bola de areia na mão, tenta seduzir dois rapazinhos cabo-verdianos para perto dele. Não lhe fizeram mal algum, foi simplesmente o que lhe ocorreu fazer, tentar atirar-lhes uma bola de areia. Os miúdos, espertos mas pacíficos, afastavam-se, não deixando de olhar para ele, que continuava a caminhar, de bola em riste, com as piores intenções. Eram dois contra um, podiam muito bem ter resolvido a coisa ali, faziam-lhe uma amona ou agarravam-lhe o braço para que soltasse a bola, e a conversa acabava. Mas não, falavam um com o outro e afastavam-se cada vez mais mar adentro. Não percebia o que diziam, mas via-os tranquilos, concluindo que estava tudo bem. Continuei na minha vidinha, quando reparo que o miúdo italiano já tinha perdido a bola de areia. E continuava a caminhar, na direção dos outros dois. Às tantas, vejo-o ir ao fundo. E a demorar para voltar. Vem à tona e vai ao fundo outra vez. Da vez seguinte que vem à superfície, pede ajuda. Não hesitei. Caminhei rapidamente até ele e segurei-o, era gordinho, pesado, até, mas dentro de água dava para levar bem. Perguntei-lhe se respirava, respondeu-me que sim e limitei-me a levá-lo até onde tinha pé, deixando-o caminhar até ao pai, que já o esperava à beira de água. O miúdo estava envergonhado, não dizia uma palavra, apenas seguiu as minhas instruções, de olhos baixos. O pai perguntou-lhe se estava a brincar, disse categoricamente que não. Agradeceu-me, disse que não era nada e fiquei ali mais um bocado. Até ver o miúdo sair da água, são e salvo. Os outros dois, que estavam a ser perseguidos por ele, tinham vindo atrás de mim e nem me tinha dado conta. Só reparei quando já estavam junto do italiano, certificando-se de que estava tudo bem. Fiquei mais um pouco, nunca mais me lembrei da história, até ter saído da água e ouvido algo do género: quase te afogavas, cretino, na voz de uma mulher que devia ser a mãe dele, que me agradeceu quando por eles passei. Não admira que o miúdo seja assim...

Estávamos em Sal Rei, a preparar-nos para voltar ao hotel, quando a minha amiga pega no pão com fiambre e nos dois bocados de banana que tinha trazido do pequeno-almoço e os dá a um miúdo que por nós passou. Devia ter uns seis anos. Ficou a olhar para as duas mãos, sem saber o que fazer. Perguntei-lhe se queria ajuda e o que queria comer primeiro. Tirei os guardanapos que envolviam o pão e devolvi-lho. A imagem e o som dos dois pregos enormes que tinha na mão e que deixa cair quando a abre para agarrar no pão dificilmente me sairão da cabeça. Não sei até que ponto lhe faziam falta, ou ao pai dele, sei que dá uma enorme dentada no pão e vai-se embora, sem uma palavra, deixando os pregos para trás. 

Outros apanham camarões, respondem educadamente às perguntas que lhes fazemos mas sorriem pouco, concentrados na sua missão.

3.8.16

Um certo músico senegalês

Viu-me três vezes na vida e diz que me ama. Nem um beijo lhe dei. No dia em que nasceu, estava na faculdade. Faz 26 anos para a semana. Quando nos vimos pela última vez, disse-me que tinha 32, não sem antes me dizer: a idade não importa, o que importa é o amor.

Interpelou-me numa noite de reggae, numa discoteca de praia chamada Acolhimento, Morabeza, em crioulo. Naquele momento, estava sozinha. Não pude deixar de reparar no tronco escultural que se adivinhava por baixo da t-shirt justa. Tudo dele, sem recurso a máquinas muito menos a anabolizantes. Fruto de corrida, flexões e abdominais. E aos seus imberbes 25 anos. Não há corpos mais perfeitos do que os dos negros, esses excelentes exemplares da raça. Queria que fossemos lá para fora, because you are so pretty, dizia ele. Não fui.

Na vez seguinte, reconheceu-me, eu não. Estava no mar, no Estoril, uma praia da capital, Sal Rei, um pouco afastada e por isso mais deserta do que a Diante, que é mesmo colada ao centro da cidade e vive lotada. Foi aí que soube que era músico, tocava Djambé e isso talvez explicasse a corrente com que anda ao pescoço, com o mapa de África e esse instrumento gravado nele. Disse-lhe que ia à esplanada nessa noite, respondeu-me que depois do seu show, apareceria lá também. Era o único sítio onde se passava alguma coisa, naquela sexta-feira, na Boa Vista. Chegou e agarrou-me logo, achei engraçado até, não estava a ser invasivo, deixei-o estar. Às tantas, não querendo mais do que aquilo, perguntei-lhe se me ia forçar, vomitando um discurso ridículo que haveria de fazer explodir de orgulho o esquadrão das feministas, em que dizia que era europeia e que nós levávamos esses assuntos muito a sério, e que no fundo não podia ser mais masculino, negando clara e inequivocamente o meu feminino. Acho que não percebeu metade do que eu disse, fosse como fosse, já me tinha dito que não me ia forçar a nada. Era apenas egocêntrico, não machista, por isso não lhe passava pela cabeça que alguém não o quisesse. Depois de um bom bocado, em que me ri às gargalhadas várias vezes com as coisas que dizia, desconstruindo-lhe o discurso, muito provavelmente decorado, comecei a sentir-me meio sufocada com aquela pressão e fui-me embora. Veio atrás de mim, vomitei mais um discurso patriarcal e ridículo, de independência e de não ter de dar satisfações a ninguém. E segui o meu caminho, irritada. No dia seguinte, depois de me ter mandado uma foto ao nascer do sol, às seis da manhã, a desejar-me bom dia, disse-me que ficou triste. Senti-me culpada por ter sido bruta e lhe ter dado um perdido na noite anterior e por continuar sem saber o que lhe dizer, já lhe tinha mostrado de todas as formas que não ia acontecer. Pedi-lhe desculpa, disse que não me sentia bem, o que era verdade, e por isso me tinha ido embora. Insiste em dizer que me ama, em perguntar quando volto à Boa Vista, dificilmente voltarei, se acaso viajasse de novo para Cabo Verde, o que duvido, iria para São Vicente, para quê, perguntou-me ele, o que, mais uma vez, me fez rir. Em dizer que quer passar um tempo comigo, para eu ir sozinha. Pergunta-me porque não lhe respondo, se estou zangada com ele, depois de me dizer que me quer abraçar e que pensa muito em mim, sendo que estamos a uns milhares de quilómetros de distância e que muito provavelmente nunca mais nos vamos ver. Manda-me fotos dele o tempo todo, diz que quer ouvir a minha voz, é auditivo, não tenho nem o que lhe escrever, o que dirá dizer... Espaço a comunicação na esperança que lhe passe, já já conhece outra e esquece-se que existo, tenho essa fé.

Dei por mim a achar isto bonito, o orgulho continental escancarado ao pescoço, o acreditar que a conversinha mole convence, a possibilidade de ele acreditar nela, que é possível amar apenas porque se acha bonito, o dizer que se ama porque se acha bonito e isso bastar, o nem lhe passar pela cabeça que eu não queira, apenas porque ele, que é o rei, me quer, o culto do corpo e a insistência em mandar-me fotos suas, porque é o melhor que tem e é isso que quer dar-me. O acreditar que é possível, que vamos ver-nos, que eu vou voltar à Boa Vista. E lembrei-me de um taxista que me levou ao hotel e disse que queria ser a companhia de uma de nós, ou das duas. Do outro que perguntou à minha amiga se queria companhia. Que há poucas coisas mais compensadoras e que melhor nos preenchem do que a paixão. A ver alguma poesia nesta simplicidade que a razão tolheu, que aniquila o romance, e que às vezes não nos fazia mal nenhum não ponderar tanto e simplesmente ir, por ser a coisa mais natural do mundo. A pensar em como o patriarcal acaba com a poesia e esconde a beleza que só os olhos de um artista conseguem ver e a alma de um poeta entender. E no desperdício de existência que isto é.

2.8.16

Boa Esperança

Das 16 mil pessoas que moram na Boa Vista, uma das dez ilhas de Cabo Verde, 9 mil moram na Boa Esperança, um bairro de lata, como lhes chamávamos nos anos 80 em Portugal, antes de termos aderido à CEE e desatarmos a construir bairros sociais que, felizmente, acabaram com o que seriam as favelas portuguesas.

Este bairro fica situado no meio da ilha e, em volta, uma série de habitações sociais foram construídas e estão prontas a acolher várias famílias. Apesar disso, encontram-se vazias, há anos. Porque as famílias não têm 100 euros para dar por mês pela casa, juntando-se-lhe o resto das contas, água, luz, gás, optam por ficar onde estão.

A grande maioria dos habitantes da Boa Esperança provem de países vizinhos. Vieram para Cabo Verde à procura de uma vida melhor, para construir os hotéis de luxo para onde vão os turistas, com tudo incluído, por uma semana. A crise de 2008 veio estragar os planos de engenheiros senegaleses, arquitetos da Gâmbia e trabalhadores da construção civil da Nigéria, que, agora, vivem na Esperança de uma mudança. Muitas das suas mulheres trabalham, todos os dias, nos hotéis que ajudaram a construir, trabalho que os cabo-verdianos recusam, por 200€ por mês, o preço que paguei pelos últimos óculos escuros que comprei, há 5 anos. Convivendo com europeus entediados que precisam que 5 jovens adultos os entretenham para se distraírem da chatice que é estarem de papo para o ar, de costas viradas para o mar, a apanhar aquele sol fortíssimo das dez da manhã na cara, com o objetivo de ficarem o mais possível parecidos com um tijolo. Servindo refeições fartas, onde nada, nada falta. Para voltarem para a Boa Esperança, onde apenas há eletricidade das 5 à meia-noite, o saneamento é praticamente inexistente e assim vivem até ao fim do mês, momento em que aproveitam para mandar algum dinheiro à família que ficou nos países de origem.

Longe de achar que as pessoas têm direito a carro ou outros luxos, o carro não é um bem de primeira necessidade, transportes decentes sim, para que as pessoas se possam deslocar para os seus trabalhos e as crianças e adolescentes para escolas e universidades. Mas há um mínimo indispensável para se viver, mesmo que se consiga sobreviver sem esse mínimo. E esse mínimo é dignidade. É um teto, é água canalizada e luz elétrica, é comida na mesa, é ensino, saúde, justiça e segurança para toda a gente. Sem isto, não há dignidade possível. O que cada um faz com a sua vida depois, é com ele, se quer morar na rua, se se desgraçou todo nas drogas. Mas para podermos dizer que evoluímos enquanto espécie, a volta dessas pessoas à vida civil tem de estar garantida, assim o desejem. Com instituições públicas que se encarreguem de voltar a inserir essas pessoas na sociedade, responsabilizando-as pelo seu processo. Não se trata de salvar ninguém, nós só precisamos de ser salvos de nós mesmos, mas sozinhos fica mais difícil. E ninguém está isento de fazer más escolhas.

Em outubro, as crianças da Boa Esperança terão um jardim de infância. Que funcionará na Associação Comunitária Unidos pela Boa Vista. Lamine Fati, guia turístico guineense, é o presidente da associação, que já disse que assim que a escolinha estiver de pé, vai construir um campo de futebol para as crianças. Conta com a colaboração de algumas empresas e os padrinhos de dezenas de crianças, que só podem frequentar a escola se quem as apadrinhou mandar 25€ por mês, no caso dos mais pequenos, a partir dos dez anos, apenas 10 euros são precisos. Tem 25 anos e muitos sonhos. Mexe-se bem e é respeitado, todos o conhecem na Boa Esperança. Uma vez por mês, celebra-se o aniversário dos meninos e meninas que nasceram nos 30 a 31 dias desse mesmo mês, com bolo para todos. Aos domingos, há pequeno-almoço dado pela associação para dezenas de crianças a quem nunca falta um sorriso e um olá. E nas festas, arranja-se sempre forma de lhes dar alegria. No dia 1 de junho, na Páscoa e no Natal. Antes do grande dia, as crianças da Boa Esperança escrevem ao Pai Natal e a Associação garante que todas recebem o presente que pediram. Às vezes, Lamine cansa-se, tudo demora, mas o brilho volta-lhe aos olhos, a força às palavras e a determinação aos gestos quando chega à Boa Esperança e as crianças lhe abraçam as pernas.

1.8.16

Sódade

A origem das Mornas é controversa. Tudo indica que nasceram na Boa Vista e diz-se que vêm do inglês mourn, luto, ou talvez do francês: morne, triste. Outra teoria, do historiador António Germano Lima, fala nas longas viagens feitas pelos pescadores e do som dos remos dos barcos a bater na água. Outra ainda atribui a proveniência a uma mistura de vários tipos musicais, desde o cancioneiro português, às modinhas luso-brasileiras, passando pelos cantos litúrgicos dos padres. Lima aposta na ideia de que a melancólica música nasceu nos corações dos escravos, saudosos de casa. Dizem que as há mais vivas e não apenas chorosas, que podem ser satíricas, caricaturais, ridículas e com sede de vingança. São cantadas em crioulo, percebem-se palavras, esparsas, aqui e ali, mas não é certamente pela letra, o intelecto, que às mornas chegamos.

Só sei o que senti quando ouvi a banda de que mais gostei, das três que conheci enquanto lá estive. Infelizmente, não por muito tempo, mas o suficiente para me invadir uma nostalgia imensa, que ao mesmo tempo me aconchega e me tranquiliza. Também me comove, vieram-me as lágrimas aos olhos uma ou duas vezes à medida que a melodia, coração adentro, se fundia com o meu sangue, correndo até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, que acompanhavam o ritmo dado pelo órgão, a bateria e o baixo. A entrega da postura e a alma na voz, sem gritaria nem microfone, não deixaram margem para grandes dúvidas. As mornas tomaram-me o corpo e a alma e apaziguaram esse sentimento tão português chamado saudade.

É como se já tivesse morado aqui, perdido alguém muito querido e aceitasse essa perda, sentida, mas de forma tranquila, como deve ser. E não tivesse vergonha nem pudores em expressar essa sódade, em chorá-la, lamentá-la, verbalizá-la como vier, cantando, lamentando, meneando.

É mais fácil aceitar em Cabo Verde, onde não há ressentimento. Que é diferente de resignação. A resignação deixa alguma raiva, pela impotência, a castração da liberdade, que me põe fora de mim, a sensação de que alguém me controla. Sou bicho solto, não suporto a ideia de estar presa, agarrada, amarrada, comprometida à força com algo ou alguém que não me faça sentido, por obrigação, imposição, convenção. Muito menos que me arranquem os sonhos.

Expressando-a, as mornas libertam o coração da tristeza, abrindo-o para o que vier. Nós, os civilizados povos da Europa, precisamos urgentemente de reaprender a fazê-lo. O coração fechado, intocado, encerrado faz de nós cínicos, imunes, distantes e inseguros, ao contrário de tudo o que nos quiseram fazer crer toda a vida.

É conhecida e mais do que aceite, quase estafada, até, a relação dos portugueses com o mar. A associação óbvia aos descobrimentos, a possibilidade que o mar sem fim encerra, mas também uma certa nostalgia, ligada à esperança que nunca morre, por não haver um fim em si mesmo, concreto, mas que, com o passar do tempo, esmorece.



Ouvia um destes dias um querido amigo falar sobre essa relação com o mar, referindo-se aos Açores. O mar que nos traz alimento, mas que nos leva quem mais amamos. E talvez isso explique a minha relação com ele, simbiótica, que tanto remete para o lugar seguro do líquido amniótico, um dos simbolismos psíquicos do mar é a mãe, quanto para o inconsciente, para onde o mergulho é necessário mas de onde não há garantia de saída. Que me lava a alma, me devolve anos de vida, mas me pode levar quem mais amo. Me atira para a costa, mas me engole numa onda, num remoinho, me leva numa corrente; me mantém viva porque me alimenta, o estômago e a esperança, mas me impede de continuar, por manter vivas memórias, abertos caminhos, ciclos por fechar. É preciso deixar que as memórias se apaguem e o coração se abra de novo para que a vida possa correr, como a água, que é a mesma, mas se renova, todos os dias.

31.7.16

Boa Vista Social Club

Correndo o risco de ofender metade do planeta, desculpem-me que vos diga, mas isso que vocês fazem não é viajar, tenham paciência. É, quando muito, turistar.

Embarquei pela primeira vez, e talvez última, num desses números de voo charter, uma semana num lugar, hotel 4 estrelas, pulseirinha e meia pensão. Não fazia ideia ao que ia, mas o tudo incluído já me parecia demais.

No início, ainda tentei entender, as pessoas trabalham o ano inteiro, andam com os filhos para trás e para a frente, ocupadas com a casa, a comida, a roupa, o trabalho fora e chegam ao verão e querem é sopas e descanso, não pensar em nada, papo para o ar e chatices zero. E segurança. É uma maneira de as pessoas mais humildes viajarem, ficarem em sítios decentes, que antes só estavam acessíveis aos ricos e poderosos, conhecerem além do quintal delas, contactarem com realidades diferentes, abrirem a cabeça. Para aí ao segundo dia, deixei-me disso. E cheguei mesmo à conclusão que não entendo, é demais para mim.

Só me apercebi de onde me tinha enfiado quando estava na praia e começo a ouvir um rapaz a falar ao microfone, senti-me na feira popular, parecia o moço que falava no poço da morte, mas em italiano, apesar de estar em Cabo Verde, onde a língua oficial é o português e o crioulo, porque os italianos tomaram conta do país, dos resorts e da vida em geral e, no hotel onde estávamos, até os cafés expresso são tirados curtos, italianas, como lhes chamamos, os locais se nos dirigem em italiano e os animadores, que também nos interpelam em italiano, gritam três horas por dia de manhã e outras tantas à tarde. Por isso me senti entre o Circo Cardinali e os carrinhos de choque de uma qualquer aldeia do interior do nosso Portugal. Demorei uns minutos a entender, no meio dos maiores resmungos, até que decidi pôr-me a andar para a praia do lado. Afinal, não tinha apanhado com quatro horas de voo e gasto o orçamento para um mês para me irritar. E a última coisa que me apetecia era que o meu primeiro contacto com a África Negra me soasse a Capri ou assim. Foi para África que fui, não para a Europa. Era África que queria, na veia, de preferência.  
E não é de hoje, desde o Club Med que não entendo o fenómeno, já na época, não tinha nem 30 anos, me lembro de nada daquilo me fazer sentido, de me dizerem que estiveram em Marrocos, no Club Med, e eu me perguntar se não seria a mesma coisa estar lá, em Punta Cana, na Madeira ou no Algarve.


Não descurando a importância de uma boa base, com um chuveiro decente e lençóis lavados, e duas refeições dignas desse nome garantidas, muito menos querendo dizer que foi mau, mulatos desnudos de sorrisos cheios e olhares lascivos na minha direção e mar verde cinema não são propriamente motivos para me queixar, confesso que os melhores momentos passei-os fora da área protegida.

Hello Africa, Tell Me How You Do it

Ainda há pouco estava entre um trópico e o Equador e agora já estou em Lisboa, transida de frio e com imensas saudades da terra sem fim.

África é tudo o que dizem dela, o que nos maravilha, o que nos deixa encolhidos de tristeza e o que nos faz transbordar de orgulho. Temos muito o que aprender com a humildade e a ausência de ressentimento dos cabo verdianos, o sorriso cheio e os olhos coruscantes dos mulatos e o orgulho e a vaidade dos senegaleses.

Hello Africa, tell me how you do it.

11.8.15

Filmes e viagens: Sob o sol da Toscana, um roteiro.

Como provavelmente vai chegar por Florença, tire uma selfie em frente à Basílica Santa Maria Novella, aproveite e visite-a, ninguém vai saber, e apanhe a estrada para Cortona.
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Não se esqueça de se encantar com os campos infindáveis de girassóis, a vida corre melhor quando nos voltamos para o sol.
IMG_1616Compre um cacho de uvas, ou uma caixinha de morangos..., e suba até ao recanto do seu lado direito, de quem está de frente para a escadaria, na Piazza Della Republica.
11144450_1648943212017723_4295054990460622623_nSente-se no banco de pedra ondulado e escreva um postal à sua mãe ou a alguém que o inspire, de quem sinta a falta. Não deixe que o seu ego racional e controlador lhe diga que não consegue ouvir o ding, dong, do sino ao longe. Feche os olhos, inspire, sinta o cheiro no ar, abra os olhos, observe o movimento na praça e deixe que a sua imaginação faça o resto. Pegue numa caneta e escreva. Ou desenhe, ou cante. Deixe a arte e o romantismo invadirem o seu coração. Trust your imagination; your heart going bum, bum, bum, como cantava o Peter Gabriel em Solsbury Hill, Cortona também fica numa colina.
Considere os sinais de Deus, mesmo que venham de forma inesperada e não necessariamente agradável.

Recupere a sua fé, não precisa de ser numa igreja, pode ser quando se sentir desesperado, abandonado, traído, sem saber o que fazer, se bem que é possível que São Francisco de Assis, na Basílica de Cortona, o inspire. Em Deus, no santo padroeiro da sua causa preferida ou na Nossa Senhora, como Frances. Não espere ver uma máquina de lavar roupa saltar à sua frente, num dia de tempestade, para começar.
Vá até à escadaria da Piazza della Republica, sente-se nos degraus e observe o movimento.
IMG_1509Não tente achar a fonte onde a loira louca espera que a venham salvar, foi recriada. Não espere que a venham salvar, não vai acontecer.
Cozinhe, quem cozinha nunca se sente sozinho, nem que seja para uma plateia de pedreiros que nem a sua língua falam, o alimento dispensa o verbo, comunicamos pelos sentidos.
Vá ao Teatro Signorelli, na Piazza com o mesmo nome.
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Tenha um caso, um flirt, um romance, um affair, com um italiano, qualquer lugar de Itália serve para o efeito.
Salte Roma, não vai conseguir ir e ficar apenas o tempo de encontrar um Marcelo, Roma não se vê num dia...
Desça a Positano, almoce num dos restaurantes de praia, dedique um tempo a ver como as casas sobem pela encosta, vá até à marginal, procure a casa de Marcello, vá até à varanda e tire uma selfie com o colorido das casas como pano de fundo.
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(Foto retirada da internet)
Adote um gato, não precisa de ser em Positano.
Volte à Villa Bramasole, se o sol o encandear, use a sombra da árvore gigante observada pela amiga oriental de Frances, enquanto esta falava ao telefone com Marcello, para tirar uma foto à casa.
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Reconheça a importância de uma bandeira, atire-a ao ar na Piazza della Republica, mas não deixe que lhe acerte na cabeça.
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Vá até à Basílica de Cortona, pare um momento e observe o único edifício que se vê claramente na paisagem, é a catedral onde os adolescentes se casaram. Não se dê ao trabalho de descer, o interior é muito provavelmente recriado em estúdio.
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Adote um adolescente, dê um desconto à intensidade das suas emoções, mas ouça-o, ele vai relembrar o que realmente importa.
A writer is not at home until her books are with her, ainda que neles haja recordações de um passado que se quer esquecer. Às vezes, as recordações servem para nos lembrarmos exatamente de que não é o passado que queremos. Atire uma jarra, ou um copo, a uma parede, ou ao chão, com força. A raiva é uma emoção saudável de resposta a algo que nos aconteceu e de que não gostámos.

Apadrinhe um casamento
Acolha uma família

Quando moramos fora, a família é quem nos dá a mão. Passe um Natal entre amigos, não há melhor período para a manifestação do amor, da solidariedade, da compaixão, do que o Natal. Deixe que o amor invada o seu coração.
Este roteiro é inspirado pelo filme: Sob o Sol da Toscana, mas podia ser inspirado na vida. Faça o seu, use a sua criatividade e imaginação, as experiências só são válidas quando vividas pessoalmente.